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Resenha S3E1: The Empty Hearse

 
 
Por Isabel Camargo

Contém spoilers do episódio.

“Depois de dois anos”. Muitos artigos jornalísticos e críticas começarão dessa forma, pois sim é um tempo terrivelmente longo para responder as perguntas que ficaram sem respostas em “The Reichbach fall”. Mark Gatiss e Steve Moffat não viram problemas em fazer-nos esperar com Dr. Watson justamente o mesmo período para rever Sherlock.

Em “The Empty Hearse” as perguntas foram respondidas, mas de um jeito totalmente diferente a que estamos acostumados - somos acometidos por surpresas a todo o momento. Sherlock é uma série conhecida pelo seu mistério, carga dramática, palavras não ditas e seriedade. Neste episódio ela foi reinventada de uma forma magistral. Parece que quando Sherlock (Benedict Cumberbatch) caiu do alto do hospital de Saint Bart, um pouco que conhecíamos da série foi-se com ele.


“The Empty Hearse” começa eletrizante, com uma das possibilidades de como ele fez para fingir sua morte. A teoria de que o corpo na calçada era de Moriarty (Andrew Scott) usando uma máscara não era uma das melhores, mas se essa já era uma indicação de que havia uma coisa errada com a cena toda, quando John (Martin Freeman) teria sido hipnotizado por Derren Brown (ilusionista britânico) isso se tornou óbvio. Sem mencionar a enorme corda que segura Sherlock, ele não poderia ter sido derrubado pelo ciclista antes de vê-la. E é claro a entrada triunfante de Sherlock pela janela, a sacudida no cabelo e o beijo (na boca – informação importante) que ele deu em Molly (Louise Brealey). Aposto que há nesse momento muitos gifs com essa cena por todo tumblr.


Com certeza essa seria somente uma teoria de Phillip Anderson (Jonathan Aris). No mini episódio de sete minutos “Many Happy Returns” que foi ao ar nesse Natal, vemos que de todos os conhecidos de Sherlock, ele era o único a acreditar que ele de fato estava vivo - veja bem, o mesmo Anderson que “torna o QI da rua toda mais baixo”. Uma das teorias do fandom era que com John enfurecido, Sherlock precisaria de um assistente e que ele daria a Anderson o posto, já que toda a especulação dele é verdadeira, isso o torna no mínimo inteligente. Porém, a teoria cai por terra quando ele nomeia outra pessoa para o cargo. Mas o que o fandom não viu foi outra dica implícita no mini episódio, que trataremos daqui a pouco.



Depois de ser resgatado, ou não, por seu irmão Mycroft (Mark Gatiss) não poderíamos deixar de notar o sorriso que acomete o rosto de Sherlock ao saber que voltaria a Londres. De volta a Baker Street podia "saltar de um bolo”, mas Sherlock é informado de que o amigo não mora mais lá, “ele seguiu com sua a vida”, “Que vida?” Sherlock esteve afastado dele. O que foi retratado maravilhosamente bem foi que realmente a vida de John é chata sem Sherlock, como vimos em A Study in Pink, antes deles se conhecerem; porém não está tão mais chata, há um novo elemento na equação: Mary Morstan (Amanda Abbington) - e o fato de que o intérprete de John, Martin Freeman é casado com ela na vida real, tornou as cenas dos dois juntos cativantes.


Sherlock escolheu um momento extremamente inoportuno para fazer a grande revelação de que não estava morto, justamente quando John iria pedir Mary em casamento. O jeito que ele escolheu também não foi muito apropriado, fazer uma surpresa disfarçado de garçom francês? Hilariante, os britânicos são exímios comediantes. Vemos por aí que o tom cômico vai reinar por todo o episódio, o drama da cena foi amenizado, foi como tirar um curativo. A atuação de Martin Freeman é comovente, leva Mary e o espectador quase às lágrimas, a emoção é tanta que ele não consegue falar, ele esmurra a mesa e quando as palavras saem é quase inaudível. Bravo Martin Freeman! É claro que toda aquela emoção ia transpor em agressão.


Foi um soco na boca e uma cabeçada no nariz, “Eu acho que alguém o ama” se transformou em alguém o detesta.


Sherlock diz a John que precisa de ajuda para parar um ataque terrorista iminente e como sabemos John diz a ele Fu... Off (em uma gag inspirada), então ele pede a Molly Hooper para ajudá-lo como sua assistente, em uma conversa intrigante. Aliás, todo o proceder do detetive consultor é intrigante nesse episódio.


Sherlock aparenta estar mudado, continua brilhante como sempre, porém sua falta de tato social parece ter diminuído e ele parece estar dando significância às pessoas ao seu lado e até ao seu redor; seus clientes eram alvos constantes de sua sinceridade maldosa, agora ele até os conforta. Suas interações com Molly são uma grande indicação disso.



A conversa que eles tiveram depois de passar o dia inteiro juntos investigando, foi extraordinária, quem poderia imaginar que Sherlock era capaz de falar de sentimentos, melhor que o John, é importante acrescentar. “Moriarty errou. A pessoa que ele achou que não importava nada para mim, é a pessoa que mais importa.” E então ele diz “Você tornou tudo possível”. Ele insistiu em dizer que é um sociopata, mas depois dessa “sabemos que isso não é verdade”.


Por estar noiva Molly não pode ser sua assistente, Sherlock dá um beijo em sua bochecha e deseja que ela seja feliz. Alguns dirão que Sherlock agiu fora do personagem, porém como vimos em “A Scandal in Belgravia”, ele realmente tem algum sentimento pela Molly, não quer vê-la magoada, essa conversa não está tão longe do que vimos no episódio da “Mulher”. Pode ter sido surpreendente, mas muitos concordarão, foi uma bela cena, realmente arrebatadora.


Um dos pontos altos do episódio também foi uma conversa entre Sherlock e Mycroft. Foi muito interessante vê-los genuinamente como irmãos, a rivalidade, mas também a preocupação. Sherlock aponta que Mycroft é solitário esse por sua vez diz que Sherlock dá valor a amigos (agora). O interessante também é saber por que agora? Em algum momento de sua reclusão Sherlock deve ter sentido a ausência de seus amigos. Solidão. Não dizem que apenas sabemos o que temos quando perdemos? Como Mycroft saberia se ele é solitário, se ele nunca teve amigos para começar? Boa pergunta Sherlock. Muito boa pergunta. Aí deve estar a razão da mudança de Sherlock.


John segue sua vida e até acha que um de seus pacientes é Sherlock disfarçado. Não há como negar, é claro que ele sente falta de todo o perigo que Sherlock proporcionava a sua vida, isso é muito bem tratado, em uma cena parecidíssima com a primeira cena da série em “A Study In Pink” que John aparece sem dormir. Ele diz a sua terapeuta antes de conhecer Sherlock “Nada acontece comigo”. 



Por isso ele volta a Baker Street e é atacado. Momentos depois duas mensagens suspeitas no celular de Mary. A noiva de John corre para falar com Sherlock, alguém menos inteligente não o teria feito. Começa uma corrida contra o tempo para salvar a vida de John. Ele está embaixo de uma fogueira pronta para ser acesa. Sherlock rouba uma moto e sai com Mary em sua garupa. Os dois chegam a tempo de salvar o bom doutor. Vemos no final do episódio que o terrorista, o novo vilão da série é o responsável, mas qual o propósito?


Como já mencionado a trama toda circula no mesmo ponto, o ataque terrorista a Londres. Sherlock nem um pouco entediado, investiga pessoas suspeitas, ele acaba descobrindo com ajuda de uma câmera de segurança do metro que um dos vagões se perdeu. John ao visitar Sherlock depois de quase virar cinza, quer respostas, mas acaba se envolvendo na investigação terrorista. É admirável vê-los juntos novamente, é uma química inexplicável, “Como você está se sentindo?” é a pergunta de Sherlock a John, genuinamente preocupado com o bem estar do doutor, a pergunta surpreendeu, o personagem está mesmo mais humanizado. A dupla dinâmica voltou, porém claramente John ainda não perdoou o detetive.
Os dois vão até a estação do metro em busca do vagão perdido, lá eles encontram um bomba, colocada para explodir o parlamento. Sherlock não sabe desarmá-la, a partir daí a apreensão é intensa. Como ele não pode desarmar a bomba? Ele é Sherlock Holmes! É a pergunta de John e do espectador, mas parece que realmente ele não sabe, lágrimas brotam dos olhos do detetive, ele pede perdão a John com a voz embargada, enquanto minutos passam e John percebe que chegou a hora dos dois ele diz num fio de voz que aquilo não é fácil para ele, mas que é claro que ele perdoa. Que momento da série! Dois gigantes da atuação Benedict Cumberbatch e Martin Freeman, são definitivamente competentes, sabem de sua arte como ninguém, coloque química entre os dois e mais um roteiro excelente na mistura e o resultado é um dos momentos mais icônicos da televisão.


Corta para Sherlock dando a explicação.  A grande explicação. O momento que os fãs esperaram dois anos para ouvir. Como cargas d’água ele fez para fingir sua morte? Sherlock explica a Anderson ou Phillip que com ajuda de Mycroft e sua rede de sem-teto, ele caiu em um colchão inflável, enquanto John era derrubado pelo ciclista, eles levam o colchão de ar e Sherlock deita no chão coberto de sangue que obviamente não é o dele e coloca a bola de borracha debaixo do braço para cortar sua pulsação. O que John vê é uma encenação. Com ajuda de Molly, ele consegue um corpo de um homem parecido com ele que é o mesmo que Moriarty pagou para raptar as duas crianças em “The Reichbach Fall” e depois matou. Brilhante.



O que foi interessante saber foi que, tudo isso já tinha sido antecipado por Sherlock e Mycroft, desde antes da soltura de Moriarty, os dois tramaram tudo isso para acabar com a rede criminosa do vilão. Essa é a dica em “Many Happy Returns”. Sherlock em seu vídeo a John ao invés de Feliz aniversário, o que é o costumeiro, ele diz algo como “Muito bons retornos” e “Estarei com você em breve”. Se John pudesse ter percebido isso...


A reação de Anderson à explicação é curiosa: ele diz que teria feito diferente. Sherlock responde “Todo mundo é crítico”, claramente conversando com o público e a repercussão que essa explicação fará. É interessante que os tais críticos possam dizer algo pernicioso sobre essa explicação, pois essa é a melhor resposta e que de todas trás maior elucidação dos fatos. John foi um homem sensato a não querer saber como e sim por que, é o que interessa no momento. Mas o próprio Mark Gatiss disse em entrevista que essa pode não ser a explicação final. Astuto.


De volta ao vagão e a explosão iminente. Ouvimos o que parece ser choro de Sherlock e John se desespera a bomba pode explodir a qualquer momento agora. Mas o que ouvimos de Sherlock é riso, ele está rindo! John fica furioso, por que Sherlock desarmou a bomba, tinha um interruptor nela, toda cena foi só teatro para John perdoa-lo. E Sherlock quase coloca todo o teatro a perder quando John diz que pode ser só uma encenação para comovê-lo, Sherlock sorri, mas se dissipa rapidamente (Sherlock também é um grande ator assim como seu intérprete). John não pode voltar atrás no que falou agora e ele diz a que vai matar o detetive, Sherlock responde “Ah me matar... É tão dois anos atrás.” 



“O carro funerário vazio” – Tradução livre de “The Empty Hearse” é o nome dado ao fã-clube de Sherlock fundado pelo Anderson, essa é uma indicação clara que o episódio foi feito exclusivamente para os fãs, por isso o tom cômico que foi dado à coisa toda foi somente uma consequência. O frenesi que instalou no Reino Unido após a exibição de “The Reichbach Fall” foi enorme, todos falavam de Sherlock, todo programa televisivo, telejornal, artigos e críticos, até aqui no Brasil, é claro dentro de nossas limitações nas redes sociais. Mark Gatiss e Steve Moffat criadores desse fenômeno televisivo são mestres no que fazem, a sabedoria que eles tiveram para escrever esse episódio foi de uma grandeza imensurável. Imagine você, homenagear os fãs? Que outro programa nos faz ouvidos? Faz-nos participantes? Posso citar inúmeros casos de decepções televisivas que nos enche de amargura, mas hoje Sherlock nos tornou importantes. Depois de tanta especulação, teorias, fanfictions e fanarts o que nos foi entregue foi um pouco disso. Então, fãs não parem de estender esse universo de possibilidades que Mark Gatiss e Steve Moffat nos apresenta (como se fossemos parar se não fosse esse o caso).


A cena final foi um brinde a série, foi uma indicação do que está por vir, serviu para matarmos as saudades desses personagens que aprendemos a amar nesses três anos. Uma das coisas mais interessantes é observar que Sherlock nem olhou para o noivo da Molly. Ciúmes? Provavelmente. Quando Sherlock finalmente olhou para o noivo dela e viu que ele tem sua mesma altura e mesmo estilo de vestuário, ele percebeu que é claro Molly não esqueceu o detetive. Coitado de Lestrade (Rupert Graves), alguém percebeu o interesse dele por Molly? “Óbvio”.



Porém não houve ciúmes com relação à Mary. Mary gostou de Sherlock e Sherlock gostou da Mary. Simples assim. Mary vocalizou sua apreciação, mas Sherlock foi muito mais sutil, talvez a explicação esteja no fato de que ele não a tenha “lido”. Sherlock pode deduzir muitas coisas sobre as pessoas somente com um olhar, sobre Mary ele não disse nada. Ele sabe que isso o afasta das pessoas, mas ele não quer perder a oportunidade de se exibir, o que o fez quebrar o padrão? Talvez seja essa a explicação ou foi por respeito ao John, não importa, Mary faz parte do grupo agora.


Esse episódio deixa um gosto de quero mais, porém o que a série nos reserva não vai ser menos que surpreendente, isso é certeza. Esse Sherlock que agora usa primeiros nomes e dá sinais de humanização vai nos surpreender ainda mais.


E como John escreveu em sue blog depois dos acontecimentos de “The Empty Hearse” se #Sherlocklives John também vive e nós queremos ver mais desses dois.



"The Empty Hearse" estreia no Brasil no dia 13 de janeiro às 22h na BBC HD.

3 comentários:

  1. Este comentário foi removido pelo autor.

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  2. Ótima resenha, Sherlock é uma série de qualidade surpreendente. A inteligência sutil e eficiente dos criadores juntamente com a destreza dos atores tornam cada episódio uma delícia.

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  3. Excelente resenha! que capricho!
    ansiosa pra ler as próximas.
    obrigada,
    Renata

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