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"Eu te amo": Sherlock Holmes já teve um interesse amoroso com a benção de Arthur Conan Doyle


Você sabia que Sherlock Holmes já disse "eu te amo" para uma mulher em uma peça de teatro autorizada por Arthur Conan Doyle? Quem resgatou o roteiro da peça foi Lady Elora, no Tumblr (aqui) e o Arquivo Sherlock traduziu o post (aqui). Mas já já a gente fala sobre isso. Primeiro: contexto.

Uma famosa declaração do criador de Sherlock Holmes, Sir Arthur Conan Doyle, costuma ser usada por muitos fãs do cânone e do detetive como uma prova do quanto Doyle se interessava pouco pelo o que se fazia do personagem. O que ninguém conta é o contexto em que ela foi dita. Então vamos a ele:

William Gillette, dramaturgo e ator que interpretou e adaptou Sherlock Holmes diversas vezes no teatro, rádio e TV e responsável por criar o bordão "Elementar, meu caro Watson", pediu a Doyle a permissão para casar Sherlock Holmes em uma peça, ao que o autor respondeu:

Você pode casá-lo, pode assassiná-lo, ou fazer o que quiser com ele.
A verdade é que isso não significa que Doyle não estivesse interessado no destino do personagem. A história completa é a seguinte:

Arthur Conan Doyle sempre teve interesse em escrever peças, não sendo muito bem-sucedido. Com o sucesso do seu personagem Sherlock Holmes, ele decidiu escrever uma peça baseado no detetive.

O produtor teatral Charles Frohman chegou a tentar comprar os direitos para adaptar Holmes para o teatro, mas a associação entre eles não rendeu frutos. Enquanto isso, Doyle resolveu escrever uma peça sobre Holmes e o Professor Moriarty. Ao ler o conteúdo do roteiro, Frohman achou que não servia para uma produção e persuadiu Doyle de que o ator e dramaturgo William Gillette não só seria o Holmes ideal, como também poderia reescrever a peça. Gillette vestiu uma capa e um deerstalker e foi se apresentar a Conan Doyle.

A peça Sherlock Holmes: um drama em quatro atos buscou inspiração nos contos "Um Escândalo na Boêmia", "O Problema Final" e "Um Estudo em Vermelho" e adicionou elementos novos. A trama foi largamente baseada no canon de Doyle, com alguns diálogos retirados diretamente das histórias originais. Sendo assim, Doyle foi creditado como co-autor.

Para a peça, William Gillette tomou grandes liberdades com o personagem, dando a ele um interesse amoroso. E o que Conan Doyle achou disso? Bem, segundo esta fonte, o autor na verdade ficou desconfortável no início, mas a peça fez tanto sucesso que ele acabou suavizando seu ponto de vista. Doyle comentou: "Eu fiquei encantado tanto com a peça, quanto pela atuação e pelo resultado financeiro". Mais tarde, o autor viria a contar a famosa história em que Gillette pedia permissão para casar Holmes e que ele daria sua benção completa.

Esta mulher que se tornou o interesse amoroso de Sherlock se chamava Alice Faulkner e foi inspirada na personagem Irene Adler. E é para ela que Sherlock Holmes vem a dizer "eu te amo" não apenas uma, mais duas vezes.

ALICE: (Tranquilamente mas distintamente): Eu não acredito nisso.
(Eles se olham um ao outro)
HOLMES (depois de um momento) : Por que não?
ALICE: Pela forma que você fala – do jeito que você – olha – a partir de todos tipos de coisa! – (Com um ligeiro sorriso). Você não é o único – que pode dizer coisas de pequenos detalhes.
HOLMES:  ( chegando um passo mais perto): Sua faculdade – de observação – é um tanto extraordinária, Miss Faulkner – e a sua dedução é bastante correta ! Eu suponho – na verdade eu sei que eu amo você. Eu amo você. Mas eu também sei o que eu sou --  e o que você é –
Tradução: Ana Paula Lima, Arquivo Sherlock

Em seu post no Arquivo Sherlock, Ana Paula Lima pergunta: será mera coincidência ou Steven Moffat e Mark Gatiss se inspiraram no roteiro da peça para escrever a tensa cena em que Sherlock diz "eu te amo" para Molly ao telefone? (Em uma situação que pouco lembra o romantismo visto na peça de Gillette). Não é impossível, já que ambos são grandes fãs de todo o universo Sherlock Holmes e conhecem esse material de cabo a rabo. 

Isso só demonstra como Moffat & Gatiss vão além da superfície e buscam referências até mesmo em material pouco conhecido do grande público. O mais legal dessa referência é que ela foi originalmente autorizada pelo Conan Doyle em pessoa, que ganhou créditos como co-autor. Seria bacana se alguma editora lançasse a tradução dessa peça por aqui.


Atualização:

A leitora Natiley Moriarty trouxe uma valiosa contribuição para o nosso post:

Gente, a peça de Gillette com o "I Love You" do Sherlock para a Srta. Alice Faulkner fez tanto sucesso que inclusive vários atores famosos interpretaram essa peça, inclusive Leonard Nimoy. (No link tb tem a foto da atriz que interpretava a Srta. Faulkner pertinho do Sherlock) http://liquidfic.org/NimoySH.html Também é digno citar que Maud Fealy, uma famosa atriz da era do cinema mudo, também interpretou a personagem Alice. http://www.maudefealy.vispa.com/mfplay3.html
A adaptação mais recente da peça data de 1981 e ganhou o nome de "O estranho caso da senhorita Alice Faulkner". Pode ser assistida na íntegra (inglês, sem legendas) no Youtube:


Para ler o roteiro completo da peça (em inglês), clique aqui
Para ler a tradução completa em português da cena mencionada acima, clique aqui

Fonte consultada: aqui


Um comentário:

  1. Na peça, a cena foi feita com todo amor e carinho, mas na série a cena demonstrou o oposto. Sherlock simplesmente não ama Molly, senão teria sido uma cena feliz, não aquilo.

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