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Quando "Um Escândalo na Belgrávia" foi ao ar, alguns fãs de Sherlock Holmes não curtiram a representação de Irene Adler. A cantora de ópera dos originais, que consegue enganar o grande Sherlock Holmes, fora transformada em uma dominatrix lésbica, trabalhando a serviço de Moriarty, que acaba se apaixonando por Sherlock no final. À parte o moralismo de se incomodar com Irene ser uma trabalhadora do sexo (falaremos mais sobre isso adiante mas já adiantando que não, na série as mulheres não usam o corpo como principal arma. Basta ver Molly, Sarah, Sally Donovan, Mrs Hudson - que, no mesmo episódio, chega a apanhar mas consegue esconder algo valioso - e Mary. Se Irene faz isso, na verdade, é empoderador), a gente deve lembrar que era o primeiro episódio da nova temporada, Sherlock tinha acabado de se safar da cena da piscina (ou seja, Moriarty também PRECISAVA retornar de algum jeito para aquela ligação fazer sentido) e seria muito estranho se ele já aparecesse sendo enganado.

Entre quem não curtiu a representação de Irene está Valéria Fernandes, do Shoujo Café,. Em um post no seu blogem que ela analisa algumas das versões atuais de Irene (e que vale a leitura), ela diz que:

Adler foi reduzida a capacho de Moriarty e alguém que usa o corpo (*leia-se o sexo*), como se fosse a principal arma de uma mulher. E daí, no arrasto, temos Holmes sendo seduzido por ela, como se o cerebral detetive fosse, no fim das contas, um sujeito reprimido sexualmente e Adler tivesse descoberto seu ponto fraco. Reafirma-se, também, o caráter daninho das mulheres...(...) Não sei quem colocou na cabeça que Moriarty precisa ser como um mega-vilão de quadrinho americano e que todo mundo tem que trabalhar para ele. Não se por qual motivo Adler se tornou uma mulher-gato (*ao estilo do novo filme de Batman*) do século XIX. E, claro, qual a profissão da mulher-gato? Aquela que se tornou quase canônica para muitos fãs? Prostituta. Mulher livre = prostituta. Aliás, mulher livre é algo muito relativo, porque, bem, afinal, Adler é criatura de Moriarty. De mulher inteligente e honrada, ela foi reduzida – e a reiteração é preocupante – a uma mulher que tem como sua grande arma a capacidade de seduzir.

Elizabeth Pereira, da equipe Sherlock Brasil, escreveu um texto aqui no blog em que concorda com ela: A Irene Adler do Moffat

Mas agora nós apresentamos um ponto de vista diferente.

É verdade, Irene Adler se sai melhor em 1891, porque ela realmente enganou Sherlock e deu no pé. Na série, foi um pouco desanimador que ela tenha acabado sendo derrotada por ele, e por motivos sentimentais. Moffat não foi muito original nessa, mas Sherlock tinha tão poucos episódios que ele pode ter pensado que seria estranho na abertura da S2 Sherlock aparecer logo se dando mal. Mas é verdade: nós teríamos preferido que a série surpreendesse e mostrasse Irene saindo por cima.



Irene Adler inferior

Agora, Irene Adler foi tratada como uma personagem inferior? Algo sexista? Como se Sherlock, por ser homem, fosse frio e calculista, e Irene, por ser mulher, sentimental e sensual?

Qualquer pessoa que afirme que "sim" ou que "não" está se baseando somente nas próprias convicções e pontos de vista. A Irene não parece ter sido tratada como inferior, não é mesmo? Ela é dona de si, trabalha para si própria, guarda segredos de pessoas importantes e em momento algum sentimental. É tão fria e calculista quanto Sherlock - e mesmo que no fim a gente descubra que ela se apaixonou por Sherlock, isso só a desabona porque faz Sherlock descobrir sua senha. Até o momento, mesmo apaixonada, Irene não se furtou de pensar em si mesma e fazer o que fosse preciso para se proteger. E se Sherlock jamais tivesse destravado o celular, ela teria ido embora.

E ela não se apaixona por Sherlock por ser frágil. Mas o que o roteiro dá a entender, é que Sherlock tem um certo poder de deixar a todos enfeitiçados (mesmo que isso pareça ridículo). Basta se lembrar daquela cena em que ela se revela viva para John. Ela chega a insinuar que ele ama o Sherlock e John responde "eu não sou gay". E Irene diz "Bem, eu sou e olha só pra gente". Ou seja, de alguma maneira, Sherlock conquistou os dois à revelia de ambos. Alguém reclama que John teria sido retratado como "frágil"? Não, Na verdade, acham até fofo...

E esse é o segundo ponto: Sherlock é frio e calculista o tempo inteiro, nos originais também. Ele simplesmente é assim. É o que faz ele ser ele e isso nada a ver com antagonizar Irene. Na série, até aquele momento, TODOS são inferiores na visão de Sherlock. Menos Moriarty.



A vida íntima de Sherlock Holmes

"Ah, mas eles apelaram ao colocar a Irene nua, não precisava". Bem, o que vemos do corpo de Irene? Nada. Vemos o mesmo tanto do corpo de Sherlock no Buckingham Palace, e ambas as cenas formam uma rima visual - o que, no caso de Sherlock, mostrou a vulnerabilidade dele; no de Irene, o poder dela.

Além do mais, "Um Escândalo na Belgrávia" foi completamente inspirado no filme de Billy Wilder "A Vida Íntima de Sherlock Holmes, e esta cena de Irene surgindo nua de costas nada mais é que uma reprodução de uma cena igual que aparece no mesmo filme. (O Mycroft de Sherlock também é inspirado no Mycroft deste filme, vale a pena ver).



Fantasia Masculina

No nosso ask.fm uma vez recebemos uma pergunta: "A Irene Adler da série da BBC parece ser uma mera fantasia masculina, e não uma mulher inteligente que não precisou usar seu corpo como foi retratada por Arhtur Conan Doyle?"

Em nossa visão, o motivo para ela ser retratada dessa forma não tem nada a ver com fantasias masculinas. A Irene ser uma dominatrix na verdade é uma piada irresistível demais: nos originais, ela é "the woman who beat Sherlock Holmes". Numa tradução literal, seria a "mulher que bateu Sherlock Holmes". Quem melhor que uma dominatrix pra literalmente bater nele? (Em inglês o trocadilho faz mais sentido). Tanto é assim que, de fato, há uma cena ótima em que ela de fato bate nele. E o engana e foge.

Nos originais Irene Adler é uma cantora de ópera. Pode parecer muito nobre nos dias de hoje mas na época essa profissão era vista como boêmia e nada respeitável. Inclusive indicamos que vocês assistam a série Downton Abbey, que mostra o período de transição do século XVI para o século XX na Inglaterra e em um dos episódios da quarta temporada eles recebem a famosa cantora australiana de ópera Nellie Melba e alguns dos personagens mais velhos ficam incomodados! Inclusive o mordomo a hospeda junto dos criados! E vejam bem, essa cena se passa nos anos 20, não na era vitoriana. O Telegraph diz que essa cena é uma incorreção, que a cantora real era bastante respeitada e tratada como igual e jamais aceitaria tal tratamento. Mas ela era uma exceção.

Enfim, cantoras não eram exatamente bem vista com bons olhos na época em que Conan Doyle escreveu "Um Escândalo na Boêmia". Logo, os roteiristas pensaram um algo igualmente escandaloso e performático para o nosso tempo. E é aí que ela se torna prostituta e dominatrix.*

*Leitores apontaram que dominatrix não é necessariamente uma prostituta. Pedimos desculpas pelo equívoco.

Agora, qual o problema de se usar o corpo como instrumento de trabalho? Alguém tem menos dignidade ou inteligência por isso? Esse sim é um verdadeiro pensamento vitoriano! Como a própria série mostra, Irene é extremamente inteligente E AINDA usa o corpo. Ela é inteligente e refinada e de todas as profissões, escolheu usar o corpo. Não é disso que feminismo se trata, liberdade de escolha? Ser respeitada e tratada como igual por ser um ser humano, independente de gênero, raça, religião, profissão? O sexo feminino não deveria ser tabu, assim como o masculino não o é. E uma mulher que admite que faz sexo e gosta disso está apenas sendo dona de si mesma, seu corpo e sua sexualidade.



Para finalizar esse post, damos a palavra a Benedict Cumberbatch e Louise Brealey, falando sobre Sherlock, Irene Adler e as mulheres de Sherlock, durante o Festival de Literatura de Cheltenham, em 2012:

Vocês acham que há algo de problemático com a maneira como as mulheres são escritas em Sherlock? Molly tem o amor não correspondido, Mrs Hudson é o arquétipo da mãe e Irene Adler é a única pessoa que supera Sherlock, acaba se apaixonando por ele e é derrotada.  
Louise – Por onde eu começo? Molly o ama. Isso não faz dela uma idiota, todos nós ficamos bobos por amor. Mrs Hudson é Una Stubbs e ela é intocável. 
Benedict – Se há sexismo, então sim, Sherlock pode ser sexista mas ele também pode ser intolerante sobre qualquer assunto, ele pode ser intolerante em tudo, não tem muito a ver com qual é a sua identidade sexual mas com o seu comportamento e ele é intolerante com a gentileza, a bondade, ele é intolerante com a lealdade e não necessariamente enxerga isso. E sobre Irene Adler? Bem, você diz que ele foi derrotado por ela mas você sabe o que eles combinaram em Islamabad? Porque eu sei. Não houve derrota. Foi tudo com bastante amor.
 Aproveite e leia também o que aconteceu entre Sherlock e Irene Adler após o detetive resgatá-la de terroristas, segundo Steven Moffat: aqui

6 comentários:

  1. Sinceramente, ninguém vai conseguir agradar a todos com a Adler. Muitos falam da Adler, representam ela em filmes como os do RDJ, nas séries excelentes da BBC, e em romances independentes como os da Carole Nelson Douglas. Mas temos que entender que Adler simplemente é uma femme fatale. Adaptada pra aquela circunstância: Derrotar um homem que não se abalava com o sexo oposto. Se Holmes fosse alguem que cultuasse o sexo, Adler faria muito bem em usar isso pra tirar vantagem dele. Irene não foi "a Mulher" em sentido geral. Pra Sherlock, com certeza. Mas lembrem-se que nas histórias dos Três Mosqueteiros de Dumas, existe a Milady de Winter, que é uma femme fatale, independente, que muitas vezes engana os heróis e nas representações televisivas muitas vezes também é colocada como uma fantoche do grande vilão (o Cardeal)

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  2. Gostei do texto. De certa forma, esta defendendo a representação na Irene na serie. Sim, é bem diferente da do livro, mas ela teve que ser adaptada para atualmente. Eu gostei dela na serie, ela é uma mulher forte e inteligente. ("A mulher", segundo Sherlock Holmes).
    Só tem um erro no texto, na parte que diz que ela é dominatrix e prostituta; ela é só dominatrix, e prostituta e dominatrix são coisas diferentes.

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  3. Particularmente, gostei bastante da série ter feito com que ela fosse derrotada pelo Sherlock. Bem, eu sou apaixonada por ele e não tenho nenhum interesse que seu histórico seja prejudicado. Me pareceu, também, que ele ficou um pouco balançado por ela, visto no final tê-la salvo.

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  4. Irene Adler foi a única que conseguiu de fato fisgar o Sherlock de Moffat, o que é triste porque eu amo a Molly Hooper, o amor que trasborda de Molly é a coisa mais linda do mundo... e por mim o Sherlock seria dela. Mas possivelmente não adianta quantas mulheres o Sherlock encontrar, a Irene é A Mulher. Confesso que Irene não me tocou em nada, ela é forçada demais, realmente criada como uma fantasia masculina, porém o único perfil que faria o Sherlock cair realmente de quatro.

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  5. Empoderador...que expressão mais cheia de carga negativa hoje em dia. Rachel Mcadams e Natalie Dormer foram mais interessantes sem aparecem gratuitamente peladas ou serem uma lésbica rainha sadomasoquista empoderada. Toda a situação não combinou com nada na série. O romance foi o que teve mais fantasioso e forçado até aqui(e na verdade a cena final dos dois prova o quanto a coisa saiu da realidade).

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