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Para quem não conhece, Adler é uma personagem dos livros de Sherlock Holmes. Ela é uma das poucas pessoas que derrotou o grande detetive, e geralmente a mais recordada por ser a única desse grupo que pertence ao sexo feminino. Irene aparece em apenas um conto – Um escândalo na Boêmia – mas é uma das figuras mais fortes do Cânone.

Esse conto foi exatamente a primeira história Holmesiana que eu li, e lembro muito bem da risada de alegria que deu ao ver que o mocinho tinha falhado em terminar seu caso, e de uma maneira bem simples, alias. A partir daí, virei muito fã de Irene, uma personagem feminina verdadeiramente forte, que se vira sozinha para sobreviver e faz as suas próprias escolhas, e NÃO o grande amor de Holmes. Até porque 1) ela tinha seu próprio homem e 2) é dito no 1º parágrafo do conto que Sherlock sentia não amor, mas uma profunda admiração por aquela que conseguiu fazê-lo de idiota.

Infelizmente, a maioria das adaptações preferem pegar o nome dela e construir um personagem totalmente diferente: ainda esperta – mas não tanto quanto Sherlock, lógico – e com o principal objetivo de ser o seu interesse romântico. Mesmo a fidelíssima série de 80 Granada fez questão de sutilmente colocar essa inclinação amorosa. Então, por mais original que fosse o programa da BBC, eu não esperava algo diferente quando fui assistir A Scandal in Belgravia.

Ok, agora sim, falemos dessa versão lindamente interpretada por Lara Pulver   

Eu a considero uma ótima adaptação até certo ponto. Ao contrário de muita gente (muita gente mesmo), gostei do emprego que Moffat selecionou para ela: uma dominatrix, alguém que é paga para ter um papel dominante em práticas BDSM. Quem não gostou geralmente diz que isso a desmerece, que essa profissão a rebaixa de maneira deprimente e sexista. Eu penso de maneira diferente.

É bom lembrar que a Irene original era uma atriz. Na era vitoriana, trabalhar nesse ramo sendo mulher era considerado algo absurdo, algo indecente. Atrizes eram rejeitadas pela alta sociedade, vistas como gente transgressoras, exageradas; não eram consideradas "mulheres direitas" mas, muitas vezes, putas. Colocá-la como uma dominatrix meio que atualiza essa visão, dando a ela uma posição na sociedade meio que equivalente às atrizes na época original

Outra coisa – eu não vejo desmerecimento nenhum em trabalhar com sexo, então não consigo ver como esse detalhe poderia desmerece-la. Na verdade, eu sinceramente acho que deveria existir mais personagens como essa Irene por aí; mulheres com total confiança de sua sexualidade, que tem esse tipo de trabalho mas não é considerada inferior por isso.

Tem também a cena em que ela é introduzida a Sherlock, completamente nua. Comentários não faltam dizendo que essa cena foi nudez gratuita; eu sinceramente acho que quem pensa isso não assistiu direito ao episódio. Ela decidiu "usar esse vestido de batalha" não só para causar uma impressão, como diz o próprio Sherlock, mas para desconcertá-lo. Ela sabe que ele não está acostumado a esse tipo de coisa, e eu realmente não vejo o problema em usar essa arma se for útil. Eu achei muito legal vê-lo falhar na dedução por falta de dados.

É uma pena que, quando o episódio chega ao final, Moffat acaba com todo o brilho de Irene em menos de 5 segundos:

I AM SHERLOCKED...gente, eu acho esse trocadilho muito legal, tenho uma camiseta com isso escrito. Mas preferiria que ele não existisse, pois foi o que transformou a Irene em mais uma mocinha babaca, que deixa os sentimentos superarem o raciocínio. Mais, muito mais – tirou toda a glória que ela deveria ter de “a mulher que derrotou Sherlock Holmes”.

Minutos antes dessa revelação, eu estava animada, pois tinha sido implantada a ideia de que todos os flertes que ela tinha jogado para cima de Sherlock não passavam de truques para ela conseguir as informações que precisava, e isso seria um plot twist incrível. Irene Adler, na cabeça de muita gente, é sim o one true pairing de Sherlock Holmes, vide as adaptações que mencionei (especialmente os filmes com Robert Downey Jr). Mostrar que ela, na verdade, nunca tinha se interessado romanticamente por ele seria um tapa na cara da audiência – até da minha!

Mas não. Moffat decidiu que o mocinho tinha que ganhar. Sherlock Holmes, perdendo em horário nobre para uma mulher? Que chato isso seria, não? Vamos mostrar que ele é superior a isso tudo, mulher sempre perde para os sentimentos, mesmo...

E assim ficou. Adler, uma pessoa tão inteligente, que sempre soube se virar e passar por cima de qualquer um, que venceu o detetive consultor de diversas maneiras ao londo do episódio, perdeu porque agiu no final com a cabeça de uma adolescente de 15 anos, e não como uma profissional. Era para ela ter rido da cara dos irmãos Holmes e saído vitoriosa, mas foi ridiculamente derrotada.

Ainda tem a questão de ela, no final, também não passar de um peão para Moriarty brincar com Sherlock. Ela, ao contrário do conto original, não estava trabalhando sozinha, e precisou da ajuda de outra pessoa para fazer aquilo tudo. Eu acho que nem teria tanto problema com isso se não fosse tão batido e desnecessário ele e Irene serem comparsas...

Ah, como eu poderia esquecer - e a queda da Irene de badass para damsel in distress?? Eu nem consigo comentar direito sobre isso de tanta raiva; cara, quantas dessas a gente já não tem por aí? Por que mais uma? Por que logo ela??

Em uma entrevista, Moffat tentou se defender das críticas dizendo que a Irene dos livros não é tão feminista assim devido ao seu final: " No original, a vitória de Irene Adler sobre Sherlock Holmes foi fugir com seu marido. Essa não é uma vitória feminista". Posso apenas concluir que ele realmente não entende muito de feminismo... fugir com aquela pessoa que você realmente ama porque a sociedade não aceitaria a união não é uma atitude corajosa? Bom, a minha opinião é exatamente a contrária, justamente porque ela faz isso porque ela quer. Ela se envolve em problemas e dá um jeito de resolvê-los da melhor forma possível. E, mesmo se sua afirmação fosse verdade, a sua solução continuaria sendo pior ainda, Moffat.


É um detalhe pequeno? Parece que sim, mas não é. Especialmente para os fãs do Cânone. Tudo o que eu tenho a fazer agora é continuar a tentar ignorando esse final na medida do possível e a agradecer porque 1) existem fanfictions e 2) Moffat não é o único showrunner do seriado. Nós estamos vendo em Doctor Who que ele não tem medo de contrariar o material original e que tem dificuldades em desenvolver personagens durante uma temporada inteira. Sabe-se lá o que seria de Sherlock se ele também tivesse controle total com esse...

Enfim, apesar de tudo o que eu falei, apesar dos outros erros de roteiro que Sherlock possui, esse ainda é o meu seriado favorito ever, e eu não vou deixar de amá-lo. Eu posso ver criticamente e surtar com todos os episódios ao mesmo tempo.

PS: um texto melhor sobre essa minha visão da Adler aqui (em inglês).

Por Elizabeth Pereira, da equipe Sherlock Brasil, publicado originalmente em seu blog Hidden Palace.

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Um comentário:

  1. Não tem como descrever em palavras o quanto eu amei esse post, ele traduz exatamente a minha opinião sobre o episódio.

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