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Uma análise sobre Johnlock e as falácias dos críticos


*O post é longo, mas vocês não irão se arrepender de ler até o fim!*

Texto de introdução por Renata Arruda

Quem participa do fandom de "Sherlock" já deve ter visto por aí centenas de fanarts e fanfics envolvendo Sherlock e John em situações homoafetivas, sejam sexuais, sejam com família constituída - incluindo um suposto filho, "Hamish". Benedict Cumberbatch e Martin Freeman costumam sempre ser indagados sobre esta situação, às vezes de maneira constrangedora como quando tiveram que ler uma das fanfics em público ou quando pedem suas opiniões em programas de TV, mostrando as imagens para todo mundo. Sempre levaram tudo numa boa e inclusive Amanda Abbington, esposa de Martin e Mary Morstan na série, sempre pareceu se divertir com a situação.

Apesar disso, todos - de Steven Moffat e Mark Gatiss - criadores, produtores e roteiristas da série -, a Benedict, Martin e Amanda - sempre deixaram bem claro: as piadas existem, muitas delas não tem nada a ver com o fato de Mark Gatiss ser gay, já que vem de Steven Moffat em sua maioria, mas é apenas isso: uma piada. Não com a homossexualidade em si. Mas com o fato de durante todos esses anos a sexualidade de Sherlock Holmes e seu relacionamento com o Dr. John Watson ter sido motivo de debate, artigos acadêmicos e suspeitas - e "Sherlock" não é a primeira a brincar com o assunto. A graça da piada é deixar todos os espectadores como se fôssemos Mrs. Hudson, sempre interpretando de maneira ambígua o relacionamento entre eles. Mas não é com essa intenção - de que Sherlock e John sejam um casal gay no armário - que eles escrevem e certamente não é com essa intenção que eles atuam. E isso é um fato. Ainda assim, não é loucura interpretar dessa maneira, já que o roteiro propositalmente instiga isso, e nem um problema - todos estão ok com os Johnlockers - as pessoas que "shippam" John e Sherlock.



Norton mostrando fanarts a Martin Freeman

Todos menos algumas pessoas dentro do próprio fandom. Se tornou comum ver em toda e qualquer discussão ou post sobre Johnlock os shippers serem ridicularizados ou agredidos. Que uma pessoa conservadora e/ou religiosa não aceite é compreensível (o que não significa que seja aceitável; ter uma convicção não te dá carta branca para ser intolerante), da mesma maneira que é compreensível que pessoas achem a ideia tão descabida quanto imaginar Cascão e Cebolinha tendo um caso. Ainda, para muitos, Sherlock Holmes é uma instituição estabelecida e sagrada - para eles imaginar Holmes e Watson como um casal seria perverter uma situação de amizade verdadeira e admiração para caber nas fantasias individuais de cada um. A verdade é que todos têm um fundo de razão e bagagem para respaldar seus pontos de vista: peguem a edição definitiva do cânone de Sherlock Holmes, comentada pela autoridade Holmesiana Leslie S. Klinger e lançada no Brasil pela editora Zahar, e verão que de Sherlock e John serem gays, a Sherlock ser uma mulher e outras teorias das mais loucas, todas podem ser respaldadas pelo cânone. Todos encontram indícios para validar suas teorias, o que faz com que todo mundo e ninguém tenha razão.



O fato é que Arthur Conan Doyle escreveu uma história simples, pela qual ele mesmo tinha pouco apreço por acreditar ser um gênero menor e sem seriedade (Doyle chegou a dizer para William Gillette - o inventor do bordão "Elementar, meu caro Watson" - que este poderia fazer o que quisesse com Holmes "matá-lo, casá-lo"; ele não se importava) e com diversos erros de continuidade (como trocar o nome de John Watson por James em um conto ou seu ferimento uma hora ser no ombro e outra hora ser na perna, entre outros), que demonstram que Doyle tinha mínima ou nenhuma preocupação em bolar tramas ocultas ou incluir subtextos em sua história. Alguns acreditam que Doyle pode ter criado dois personagens homossexuais inconscientemente, já que na época estas pessoas podiam viver uma amizade como a Holmes e Watson sem sair do armário para a sociedade. Talvez. Ainda que os fatos sejam que Doyle criou o detetive inspirado em um professor que admirava e Watson em um amigo de classe e em uma época onde Oscar Wilde fora condenado à prisão por ser homossexual (e a lenda diz que Doyle testemunhou a seu favor alegando que homossexualidade era doença), é pouco provável que tenha tido alguma intenção de relacionar seus amigos a algo visto como crime/doença na época - mas não impossível, Doyle podia estar à frente do seu tempo e jamais saberemos.

O mais provável é que para a história que queria contar, mulheres e casamentos atrapalhariam que Watson estivesse sempre ao lado de Holmes para poder testemunhar suas peripécias e escrever sobre elas, logo é mais fácil mantê-los vivendo sempre juntos, como o herói e seu fiel escudeiro.





Tamanha confusão é o que dá tanto pano pra manga e abre as possibilidades para uma infinidade de interpretações, teorias e adaptações.


O que nos leva ao fato de que independente de qual seja a sua leitura, tanto do cânone quanto da série, você não tem mais razão que os outros e se quer fazer parte de um fandom deve aprender a lidar com a diferenças e ainda que não concorde de maneira nenhuma com Johnlock (ou com nenhum ship), a política da boa vizinha aconselha que se saiba respeitar o próximo.


Sobre este assunto, que já se estendeu bastante neste texto introdutório, a roteirista
Petra Leão escreveu uma excelente análise no grupo Sherlock Fandom desmontando as críticas mais recorrentes, que vale a pena ser lida por todos os que resistem em aceitar que milhares de pessoas por aí acreditam em Johnlock como uma possibilidade real. Fala, Petra:



Foto: Lara Paiva/Fotec

"Ninguém quer obrigar ninguém a shippar nada nem está acusando ninguém de homofóbico só por não shippar um casal gay!


Eu fico imaginando uma pessoa que não gosta de goiaba vendo alguém comendo goiabada e falando "mas por que você gosta disso, hein? É ruim. Marmelada é tão melhor. Nossa, odeio goiaba. O gosto é insuportável. Não sei como você consegue engolir isso. É nojento e..."

Aí a pessoa que gosta de goiaba solta um GOSTO PORQUE SIM, PORRA e o primeiro fulano fica "ai, só estava emitindo minha opinião, não precisa ficar nervoso, credo..."
Agora pensa que a pessoa que gosta de goiaba tem que lidar com os anti-goiabas e seus discursos TODO SANTO DIA.

Agora troque goiaba por Johnlock.


Revejam suas posturas e confiram se não estão sendo inconvenientes antes de reclamar de intolerância!


***


1) "JOHNLOCK NÃO É CÂNONE"


Vejo muita gente se apegando ao cânone pra justificar que "John e Sherlock não são gays, nadaver vocês aí pirando na batatinha".


Pessoalmente, minha interpretação sobre o cânone é a mesma que a da Aino (eu e ela já debatemos essas questões várias vezes, e chegamos às mesmas conclusões!) Repetindo o que já foi dito: "A MEU ver, o Holmes é assexual mas pode ter uma atração romântico e não-sexual pelo Watson.Já o Watson é hetero (talvez bi), tem uma obsessão pelo Holmes e talvez uma atração sexual reprimida -- na era vitoriana era crime ser gay, então é de se esperar que um bissexual escolhesse ter um comportamento social heteronormativo."


Mas sim, assumo que isso tudo é mera especulação baseada em entrelinhas dos livros. Na PRÁTICA, tudo indica que canonicamente Holmes e Watson não tivessem nada entre si mesmo além de uma grande amizade ou admiração (se tinham sentimentos envolvidos, ficou no platônico).


Acontece que na verdade, o cânone NÃO IMPORTA. Uma coisa são os livros, outra é a série da BBC!


Sherlock Holmes hoje é domínio público (legalmente falando, inclusive), então reinterpretações do personagem são inevitáveis e inclusive bem vindas. Apesar de eu achar a série da BBC bem fiel ao cânone em vários sentidos, tem muita coisa inventada também, PRINCIPALMENTE no que diz respeito aos sentimentos dos personagens (eu não me lembro de nos livros a Irene Adler ter paixonite nenhuma pelo Holmes, por exemplo.) Sendo assim, abre-se a porta pra que a relação de Holmes e Watson também possa ser trabalhada de outra forma na série.


O maior exemplo é a própria Molly, que também não existia no cânone original e mesmo assim nunca foi empecilho pra Sherlolly shippando o Sherlock com ela por aí (inclusive eu!)


É curioso como algumas pessoas só se apegam ao cânone pros detalhes que lhe convém, enquanto pra outros conseguem ignorá-lo completamente, não?





2) "CONAN DOYLE NÃO TINHA ISSO EM MENTE"


"Mas ainda que sejam coisas diferentes, acho desrespeitoso para com o Conan Doyle! Não era isso que ele tinha em mente quando criou os personagens!"


(Nem vou entrar no quesito de como é absurdamente preconceituoso achar que um casal, fictício ou não, possa ser "desrespeitoso" ou "ofensivo" pelo mero fato de ser homossexual, porque eu espero que seja óbvio.)


Quero antes dizer que acho essa uma desculpinha muito marota que as pessoas usam pra tentar "invalidar" o argumento que Sherlock e Watson podiam ter sentimentos um pelo outro (e veja bem, eu disse SENTIMENTOS, que não é a mesma coisa que romance; já gostei de muita gente sem ter necessariamente namorado com essas pessoas! Romance, pelo menos oficialmente, eles não tinham mesmo, embora dê pra imaginar que pode ter rolado coisa que o Watson optou por não contar nas crônicas...)


Voltando: esse lance de "Se o Conan Doyle não tinha isso em mente, quem é você pra ter?" é um recuso bem falacioso chamado apelo à autoridade.


Claro que um autor do século XIX, heterossexual, criado numa sociedade onde pederastia era condenada como crime, provavelmente não quis -- pelo menos não conscientemente -- criar um casal gay, mesmo. Aí pronto, o anti-Johnlock dá o caso por encerrado. "Se não era a intenção do Doyle, cabô! A intenção do autor é mais importante do que seu ship! Seu argumento é inválido!"


Mas se é pra falar de intenção do Doyle, então vamos lá: só pra começar, ele menosprezava o personagem Sherlock Holmes. Embora achasse divertido no começo, com o tempo foi passando a detestar escrever as histórias; só fazia por dinheiro (por isso tentou matá-lo pra se livrar do personagem em definitivo, e só trouxe de volta pela pressão popular). Sendo assim, QUEM GARANTE que ele não possa ter colocado uma possibilidade do Holmes ser considerado gay nas entrelinhas? Seria talvez uma boa maneira de se livrar do personagem se ficasse "mal falado" pelo público, ou no mínimo, se "vingar" passivo-agressivamente (a famosa "trollagem" xD) da atenção "exagerada" que o personagem ganhava, na opinião dele!


No mais, o Doyle chegou a declarar que os livros de Holmes eram "subliteratura" perto das outras coisas que ele escrevia, e que odiaria ser conhecido como o "o homem que criou Sherlock Holmes". Então, galera, se é pra levar o desejo do Doyle em consideração, bora todo mundo largar de ler/assistir coisas ligadas a Sherlock e nos dedicar aos livros do Doyle que ele queria que fossem lidos, como "A Guerra dos Bôeres" =p


Mas fora isso, tem OUTRAS razões pelas quais a gente não deve tomar a intenção do Doyle como argumento final.





3) A INTERPRETAÇÃO DO PÚBLICO É TÃO VÁLIDA QUANTO A INTENÇÃO DO ARTISTA

Eu fiz faculdade de Artes (não, não é uma carteirada de apelo a autoridade, estou só comentando) e uma das primeiras coisas que a gente aprende enquanto pessoas que fazem arte pra apreciação do público (seja escrever, pintar, desenhar ou whatever) é que o autor NÃO TEM controle sobre sua obra.


Um exercício que a gente tinha que fazer toda semana na faculdade: criar diversos trabalhos de arte e apresentar pra classe, e ouvir quietos o que as pessoas achavam que quisemos dizer com aqueles trabalhos. Em alguns momentos era angustiante a conclusão ao que os outros chegavam, principalmente quando deduziam coisas que não tinham NADA a ver com o que eu quis passar quando criei aquilo. Mas meus professores sempre falavam: "o autor não vai ficar sempre do lado do trabalho pra explicá-lo onde quer que ele seja, exposto ou publicado. Sua obra tem que falar por si, então é bom ficar atento aos elementos que você pode estar colocando ali. E mesmo assim, as pessoas vão achar coisas que você nunca imaginou. Arte é isso."


A arte é um bate-bola do autor com o público. É que nem criar filho; você não cria pra si mesmo, mas pra um dia ser independente no mundo. Se não fosse assim, a gente escrevia, desenhava, pintava e não mostrava pra ninguém, guardava a sete chaves no fundo do baú pra auto-apreciação. Mas não. A gente sente essa necessidade de dividir nossa criação com as pessoas. A obra de arte só cumpre sua função quando é reinterpretada pelo público. É a interpretação do público que COMPLEMENTA a obra!


Essa reinterpretação pode ser feita de várias formas. Às vezes o público bate o olho e entende direitinho o que o autor quis dizer. Às vezes, porém o público identifica coisas que o autor nem pensou que estava colocando quando criou a obra. E às vezes o público vê coisas que NUNCA foram a intenção do autor mesmo (e o autor tem que estar preparado pra lidar com isso, porque faz parte.)


Isso acontece porque existe algo que a Psicologia chama de INCONSCIENTE, que em suma, são pensamentos e sentimentos que estão dentro da mente de cada um e que nós não sabemos que estão lá. São resultados de nossa vivência, nossas experiências.


Quando um artista cria, é muito comum que o inconsciente tome conta e nós expressemos coisas que estão dentro da gente e nem percebemos. Exemplinho: O Tolkien sempre disse que odiava metáforas. Mas quando o Senhor dos Anéis foi publicado, muita gente viu paralelos entre a obra e a 2ª Guerra. O Tolkien JURAVA que nunca tinha pensado nisso quando escreveu, mas os paralelos são inegáveis. Sabendo que o Tolkien lutou na guerra e essa foi uma experiência muito marcante na vida dele, talvez ele nem tenha percebido que estava colocando esses elementos lá, mas o fato é que lá estão.


"Mas Petra, o que tudo isso tem a ver com Sherlock?" Tem a ver que então não adianta ficar se prendendo ao que o Conan Doyle tinha em mente ou não, queria ou não. A intenção dele NÃO É mais importante do que a maneira como seus leitores recebem seu texto, porque nem o próprio artista tem dimensão do que está passando com seu trabalho. A reinterpretação do público sobre a obra é tão válida quanto a intenção do autor.


E falando nisso de "colocar elementos sem perceber", uma possibilidade que pode ter ocorrido é a de que o Conan Doyle tenha retratado a amizade que ele via em seu dia a dia de "homens muito próximos", e que na realidade podiam muito bem ser casais no "armário vitoriano". E se ele escreveu um casal gay sem saber que estava fazendo isso? Não é impossível.





4) “VOCÊS FICAM VENDO UM LIVRO DO SÉC. XIX COM OLHOS DE HOJE EM DIA”


A homossexualidade pode ter sido reprimida ao longo da História, mas não foi inventada (e praticada) apenas no século XX.


Próxima.


5) SHIP NADA MAIS É QUE UMA FANTASIA, LOGO TUDO É VÁLIDO


Imagina que você conheça alguém que curte a ideia de pegar (ou ser pêgo) por uma enfermeira, daquelas bem de desenho animado, de minissaia, decotão e salto agulha. Aí a pessoa compra uma daquelas fantasias de sex shop de enfermeirinha e entrega pro ser amado usar. Aí pense que na hora do vamos ver, brota alguém de trás da moita gritando pros dois que eles não podem fazer aquilo porque é absurdo, "enfermeiras de verdade não são assim!"


Dude, CLARO QUE NÃO SÃO! E nem precisam ser! Fantasia é fantasia. É o prazer de pensar em um conceito que lhe é atraente por alguma razão (que com certeza Freud explica, mas cujas razões são irrelevantes: o fato é que a pessoa curte e pronto!). Se a pessoa tiver atração por uma fantasia mais realista, OK, mas nada errado também em ela fantasiar com uma parada totalmente absurda, tipo piratas ninja do espaço sideral.


Com ship, no fundo, é a mesma coisa. A pessoa que curte shippar ou "torcer" pra esse ou aquele casal, por mais impossível ou improvável que seja, NÃO PRECISA ter base na realidade (ou seja, ser "canon") pra curtir aquilo. Ela apenas curte a ideia, sem grandes compromissos. Imaginação serve pra isso!


Como alguém já falou, ship vale tanto pra Sherlock/Irene quanto Harry Potter/Coruja! Vale INCLUSIVE Sherlock/Coruja (embora se fosse pra entrar no terreno da zoofilia, acredito que o Sherlock preferiria o Red Beard)





6) "MAS NÃO TEM NADA DISSO LÁ"


Opa! Essa é a afirmação MAIS PRESUNÇOSA de todas, porque ver ou não ver não é prova de nada! Afirmar que NÃO TEM é tão perigoso quanto afirmar que TEM COM CERTEZA. Só porque você não vê, não quer dizer que não exista. Assim como não é porque alguém diz que viu que exista também!


A Laura , aqui do grupo, uma vez comparou brilhantemente a questão do shipping Holmes/Watson com a traição de Capitu em Dom Casmurro. Como afirmar o que aconteceu e o que não? (Ainda mais que em ambos os casos a história é contada em primeira pessoa, do ponto de vista pessoal de um personagem, e não através de um narrador neutro e onisciente!)


Simples: NÃO SE PODE AFIRMAR NADA!


O que existem são BRECHAS PRA DIVERSAS INTERPRETAÇÕES (entra aqui o que falei ali acima sobre a reinterpretação do público ser tão importante quanto a intenção do autor). Você pode até dizer que não vê nada (ou não quer ver...), mas as brechas nas entrelinhas existem, e são nelas que outras pessoas podem ver o que quiserem.


O ship -- cânone ou não, verossímil ou não -- é antes de tudo uma brincadeira com essas brechas que a obra oferece: é "procurar pistas" nessas brechas pra fundamentar um possível romance entre dois personagens. "Se eles fossem um casal, como e porque se interessariam um pelo outro, levando em conta o que foi mostrado até agora?" É um exercício de imaginação. E não faltam momentos como esse nos livros e na série!


Em "Um Estudo em Vermelho", assim que Watson se muda pra Baker Street, a principal ocupação dele é ficar observando Holmes e tentar deduzir o que ele faz ou não da vida, quais seus conhecimentos, etc. Porque ele não chega e simplesmente pergunta pro Holmes? Isso poderia ser sinal de timidez misturada com fascinação, típica de quem se apaixona e procura saber mais sobre o objeto de afeição sem confrontá-lo diretamente pra "não dar bandeira".


Em "O Signo dos Quatro", quando Holmes fica sabendo que Watson vai se casar, ele fica OBVIAMENTE irritado, embora tente fingir que não liga. E ainda dá a entender que vai afundar as mágoas na cocaína...


Em diversos contos o Conan Doyle coloca que sempre que Mary viaja ou está fora, Watson aproveita a ausência dela pra correr pra Baker Street. Inclusive
[SPOILERS DO CÂNONE A SEGUIR] quando Watson fica viúvo, ele volta à Baker Street pra morar com Holmes.


O trecho que mais dá margem pra uma segunda interpretação, porém, é do conto "Os Três Garridebs", quando Watson é atingido por um bandido e Sherlock entra em desespero:





"(...)Em seguida, os vigorosos braços de meu amigo enlaçaram-me e arrastaram-me para uma cadeira.


— Você não está ferido, Watson? Pelo amor de Deus, diga que não está ferido!


Valia bem um ferimento — valiam vários ferimentos — a constatação da profunda lealdade e da afeição que se escondiam sob aquela máscara de frieza. Seus olhos claros e severos se turvaram por um momento, e os lábios firmes tremiam. Por uma única vez — aquela — eu vi de relance, além de um grande cérebro, também um grande coração. Todos os meus anos de leal porém humilde colaboração culminaram naquele momento revelador.


— Não é nada, Holmes. É um simples arranhão. (...)


— Tem razão — disse, com um suspiro de imenso alívio. — É superficial. — O seu rosto parecia de pedra quando fitou o nosso prisioneiro que começava a sentar-se com uma expressão aturdida.


— O senhor teve mais sorte do que merece. Se tivesse matado Watson, não sairia vivo deste aposento."


***


Neste trecho, Sherlock está quase chorando porque Watson foi atingido. E Watson afirma que valia a pena levar MAIS de um ferimento mortal só pra ter a certeza de que o Holmes o apreciava. Pode ser só uma amizade franca e pura? Claro! Mas pode também mostrar sentimentos enrustidos, porque não?


Na série também não faltam momentos pra atiçar a imaginação dos shippers. Logo na 1ª temporada o John atravessa a cidade SÓ pra atender um pedido do Sherlock – um cara que ele ACABOU de conhecer!


E o que dizer de todo mundo SEMPRE achando que eles são um casal? Muitas vezes você acha que esconde bem os sentimentos, mas eles transparecem pra quem está de fora! Isso é mostrado como piada recorrente na série, mas nas menores brincadeiras estão as maiores verdades. (São tantos momentos que nem vale a pena citar todos!)


E a reação de John a morte de Sherlock. Foi um luto de DOIS ANOS (já vi pessoas perderem amigos e demorarem pra superar... mas ninguém levou dois anos.) E o John só superou quando encontrou OUTRA PESSOA que o fizesse esquecer.. e ele se CASA com essa pessoa que “entrou no lugar” do Sherlock na vida dele.


E como nos livros, os únicos momentos em que o Sherlock demonstra desespero REAL são quando o John está realmente em perigo: na piscina, dentro da fogueira... (me pergunto se o Sherlock teria tido tão pouca hesitação em enfiar um tiro na cara do Magnussem se ele não tivesse humilhado o John, além de tudo!)


O fato é que o Holmes é assexual nos livros e na série (embora na série tenha-se sugerido que ele não é "tão" assexual assim, depois do affair com a Irene -- uma das invenções da série que eu menos curti). De qualquer forma, acredito que é como vão mantê-lo: homem, mulher, tudo igual (e desinteressante) pra ele. "Amor é um erro", etc. Mas, SE fosse pra ele ter um romance com alguém, seria totalmente lógico que fosse com "a pessoa que é "mais importante no mundo pra ele" (que é como o Magnussem define o John.)




CONSIDERAÇÕES PESSOAIS


Gostaria de deixar aqui comentários sobre como todos os argumentos acima se aplicam de forma prática, relativo a minha experiência em relação a shipping envolvendo um dos maiores fandoms de uma obra brasileira: Turma da Mônica (pra quem não sabe, sou roteirista na MSP, escrevo a Turma da Mônica Jovem, prazer)


Quando o Mauricio de Sousa criou a Mônica e o Cebolinha vocês acham que ele já tinha a intenção que um dia eles ficassem juntos? Claro que não, gente! Isso foi algo que foi incorporado DEPOIS ao cânone "Turma da Mônica" em resposta ao

imaginário do público (exemplo de como a reinterpretação do público complementa a obra!) E isso não foi desenvolvido pelo Mauricio, mas por roteiristas que vieram depois pra "cuidar" da turma quando o Mauricio não dava mais conta. Claro que nesse caso é um shipping que acabou sendo endossado e transformado em "oficial" pela empresa, mas até aí a BBC pode fazer a mesmíssima coisa com Sherlock!

E mesmo que não aconteça, ainda usando a Turma da Mônica Jovem como exemplo: o que não falta entre os fãs da TMJ é gente que shippa Cascão com Magali. Eu, o Mauricio e outros roteiristas achamos nada a ver, nunca senti química entre os dois e ademais, a Magali namora o Quim e o Cascão, a Maria Cascuda. Ainda assim o pessoal shippa os dois se baseando em dados que nós mesmos que produzimos a revista NUNCA reparamos! ("Ah, mas olha o jeito que o Cascão olha pra Magali no quadrinho tal!", "Na história tal a Magali se machuca e o Cascão é o primeiro a se preocupar com ela!")


Esses detalhes que os leitores reparam em geral foram decisões aleatórias, mas são coisas em que eles se apegam pra fundamentar seu shipping. E porque não? Com o tempo eu comecei até a fazer brincadeiras e colocar um ou outro elemento Cascão/Magali de propósito, pra fazer o circo pegar fogo mesmo e alimentar a imaginação da galera... embora pessoalmente eu ache que eles não tem nada a ver. Isso é o bate-bola com o público que eu falei anteriormente. Eu não shippo Cascão e Magali, o que não quer dizer que eles não sejam shippáveis e que eu mesma não possa deixá-los juntos, se for interessante de alguma forma. As sementes já estão lá. Se eu vou usar ou não, aí só o futuro dirá.


CONCLUSÃO


Isso tudo é resumido numa frase que minha mãe soltou quando eu era criança e comecei a ler Holmes.


Em algum momento ela comentou que Holmes/Watson tinham, a seu ver, uma possível tensão homossexual. Meu pai (que também é fanzão de Sherlock Homes) ficou furioso e disse que não tinha nada a ver e o quão absurdo era cogitar essa possibilidade (ê, machismo...)


Minha mãe (que leu os contos mas não é fã e tem um olhar bem impessoal sobre a obra) deu de ombros e disse só: "talvez não tivessem nada mesmo. Mas poderiam ter".


É isso.


***



11 comentários:

  1. Muito bom!!! Gostaria de deixar um comentário melhor, mas apenas consigo dizer: Petra, você me representa!
    Grande beijo!

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  2. Uma pausa pra ver se eu consigo colocar toda a minha admiração e identificação com esse texto em um pequeno comentário...

    ...

    ...

    ...

    ...

    Pois é, não consegui. Só posso repetir a frase da pessoa ai de cima: você me representa! (Quer se candidatar pra presidente?)

    PS: NÃO CREIO que você é roteirista da MSP :o #morrendo

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  3. Vou imprimir esse texto e vou colar na cara de todo mundo que é intolerante com Johnlock. Ótimo texto!!!

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  4. Cara, adorei o texto! Valeu cada segundinho gasto :) Vc super me representou, e tirou as palavras da minha boca. Parabéns pelo texto e pela sua forma de ver as coisas. Kissees! ;)

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  5. valeu muito a pena ler até o fim! entendo quem não shippa, mas pra mim é Johnlock ftw.

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  6. E o pior é que esse problema não existe só em sherlock, adoraria q os outros fãs pensassem como você, mas isso seria muito utópico.

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  7. Simplesmente um texto perfeito! Eu estou lendo Um Estudo em Vermelho agora mesmo ahahah e é exatamente isso que notei: que Watson fica observando demais o Holmes... Enfim, sempre vão existir "provas" a favor e contra em qualquer shipp. E não CREIO que vc é uma roteirista da Turma da Mônica Jovem! Eu simplesmente amo, comecei a comprar á anos, logo na segunda edição! Tenho todos kkkk e um melhor exemplo do que vc disse é o namoro entre Mônica e DC, eu adoro esse casal desde da primeira vez que vi mas minha prima não suporta... Pois é, é tudo uma questão de opinião. P.S: desculpa por esse comentário aleatório e desorganizado, é que senti a necessidade de deixar um comentário nessa análise!

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  8. Assisti o primeiro ep dessa série. Mas assim como TVD, PLL, entre outras séries e recriações, a série também é cultura. Eu não deixaria de ver essas reinvenções só porque o livro veio primeiro ou algo do tipo, isso significa que a obra é tão bem vista que merece ser prolongada de diversas outras maneiras. Amei seu texto, menos a parte do "bora todo mundo largar de ler/assistir coisas ligadas a Sherlock e nos dedicar aos livros do Doyle". Além disso, se assistirmos a série/filmes, obviamente iremos se interessar em ler os livros, assim como aconteceu comigo.

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  9. MUITO OBRIGADA por esse texto, socorro!
    Amo/sou os mais variados ships homossexuais e é claro que essa treta rola em todos eles. Vou carregar esse texto no bolso por aí, para sempre que for necessário. Hahahhaha

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  10. Eu sabia que a Petra era da MSP e nada além disso, agora, vejo essa mulher com outros olhos. Parabéns a ela e a quem escreveu a matéria!
    #petramerepresenta

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  11. Foi SACD que inventou Johnlock, eu só comento!

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