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O site Sherlockology, responsável pela cobertura da Sherlocked: The Official Sherlock Convention, disponibilizou a transcrição de mais um painel do evento. Dessa vez, os produtores da série Steven Moffat e Mark Gatiss falaram com a plateia presente sobre a produção da série, além de tirarem dúvidas e responderem a curiosidades sobre as gravações.

Abaixo vocês conferem a tradução da entrevista.


O que se segue é uma transcrição completa da primeira aparição de Steven Moffat e Mark Gatiss no painel Sherlocked que aconteceu no Excel Centre, no dia 25 de abril de 2015. Os produtores, que participaram do primeiro painel do evento, adentraram o palco (uma réplica da sala do apartamento 221B) de forma jovial - com Mark Gatiss imediatamente tomando posse do sofá ...

Mark: Eu vou me deitar no sofá, pois estou muito cansado
Steven: Tudo o que vocês precisam saber sobre o nosso relacionamento… ele deitado.

Moderador: Existem apenas dois programas na TV Britânica que poderiam encher um salão como esse aqui. E vocês trabalham nos dois.

Mark: E Balamory?

Moderador: Ah sim! Eu esqueci esse! Eles ainda estão produzindo? Então... depois que vocês fizeram aquela romântica viagem de trem que acabou resultando na ideia para o seriado, o quão fácil foi convencer a BBC a pegar essa ideia? E vocês tinham ideia de que eles realmente iriam produzir? 

Steven: Aconteceu muito rápido. Chegamos lá para lançar a ideia, e não mencionamos nada além de 'um Sherlock Holmes nos dias atuais', e eles mais ou menos disseram "sim". Dessa forma, a nossa ideia fenomenal e imaculada não acabou desperdiçada, visto que acabamos produzindo. Mas houve um momento durante a produção do piloto em que tivemos dúvidas, não foi?

Mark: A nossa ideia era fazer tudo de forma simples (porque obviamente estamos falando de um dos personagens mais conhecidos do mundo), porém sem ser muito caro, pois como não faríamos nada de época, parecia o certo. Entretanto teve um momento depois que filmamos o piloto em que discutimos sobre várias coisas. Eles estavam preocupados que Sherlock não parecia muito legal, mas nós fomos capazes de argumentar que existia precedência, que essas histórias sempre fizeram bastante sucesso.


Moderador: Vocês tiveram que voltar atrás e refazer o primeiro episódio?

Steven: Sim, refizemos completamente. A razão para isso foi que fizemos o episódio como um piloto e ele foi exibido como piloto! O que é bastante comum nos dias de hoje e um pouco insatisfatório, afinal é melhor tratar um piloto como uma experiência. Porém Ben Stephenson (antigo encarregado da área de Drama da BBC) decidiu que gostaria de ver o projeto como três episódios de 90 minutos, uma fórmula que tinha dado certo para Wallander.
E, por incrível que pareça, Mark e eu estávamos na primeira leitura de Matt Smith para o papel de Doctor Who -  os primeiros seis roteiros, apenas para deixar Matt confortável com o papel - quando recebi um telefonema de Sue (Vertue) dizendo "Ben Stephenson vai dizer sim agora, se nós concordarmos em fazer uma série com três episódios de 90 minutos. Você quer ir lá e discutir isso?"

Mark:
Então nós dissemos “Sim...não... tudo bem, vamos fazer isso!”

Steven: E a Sue falando “Não? Fala logo sim! Vamos discutir isso melhor mais tarde”

Moderador: Originalmente nos episódios as cenas finais dariam margem a suspense para os próximos episódios, como é feito com Doctor Who? Isso seria uma fórmula?

Steven: Com a versão de 60 minutos? Provavelmente teriam sido seis episódios de 60 minutos, que é o que estávamos pensando que seria, e agora eu acho que tendo estendido para noventa minutos... bem, teria dado certo da mesma forma, mas estendendo para noventa minutos mudou completamente.

Mark: Tem uma escala para isso. Eu lembro de assistir Wallander e ficar pensando que você tem uma escala, um tamanho para isso, para essas histórias, pedaços que ligam essas histórias de uma forma que após seis horas nós teríamos contado histórias muito diferentes de Sherlock Holmes. Dessa forma, uma vez que tomamos a decisão de ir produzir a série com episódios de 90 minutos,tivemos que repensar a coisa toda. Nós imediatamente pensamos em apresentar Moriarty logo no início, trazer Mycroft mais cedo para a série, todos os tipos de coisas. É a nossa própria forma de  de não diferenciar prazer, apenas se deixar levar.

Moderador: Durante essas viagens de trem que vocês fizeram enquanto fantasiavam sobre o que poderiam fazer na série, vocês já sabiam que interpretaria Sherlock ou Benedict [Cumberbatch] teve que fazer teste para o elenco?

Mark: Ele fez. Nós tínhamos uma pequena lista de 250 candidatos e Benedict foi o escolhido. Eu fiz um filme com ele chamado Starter for Ten… essa é a hora:
(Uma pausa e então aplausos e comoção do público)
Mark: Nos Estados Unidos, as pessoas deixam esses espaços (improvisa um sotaque americano) “Eu fiz um filme chamado 'Starter for Ten'”
(Mais risos e mais aplausos do público presente)
Mark: Obrigado! Eu já conhecia um pouco Benedict e Steven e Sue tinham acabado de assistí-lo em “O Jogo da Imi...”, ops...
Steven: Desejo e Reparação
Mark: Desejo e Reparação! Obrigado! Desejo e Reparação. Desculpe, é que é muito cedo ainda! (improvisa novamente um sotaque americano) “Eu fiz um filme chamado Desejo e Reparação!”
(Aplausos novamente)
Steven: Em que ele interpreta um estuprador

Mark: Foi um daqueles momentos de junção, não foi? Ele parecia ser a escolha lógica! E então ele veio para a leitura do roteiro e foi simplesmente perfeito. Levamos um pouco mais de tempo para chegarmos ao Martin [Freeman], no sentido de que tínhamos visto praticamente cerca de seis Doutores Watsons, incluindo Matt Smith (que depois se tornou The Doctor) em um final da semana. Mas a química entre Benedict e Martin foi imediata e óbvia, então Steven inclinou-se em minha direção e disse 'Já temos o seriado!'.

Moderador: Se tem uma sensação muito distinta em termos de direção, gráficos sendo projetados para a tela. Isso tudo foi roteirizado por vocês? 

Steven: Agora está sendo. Mas começou ainda durante as filmagens do primeiro episódio que nós gravamos, que foi “O Grande Jogo” e nesse episódio, caso vocês se lembrem, há uma quantidade enorme de mensagens de texto, e Paul McGuigan, homem muito inteligente, odiava a ideia de cortar a cena para ficar mostrando a tela do telefone. Ele costuma dizer que seria uma cena morta, que você teria que ficar focando a câmera na tela do telefone por horas para que até o leitor mais lento tenha a chance de ler o que está escrito na tela.

Mark: E a câmera teria que ficar num ângulo bem estranho para que todos pudessem ver o que estava escrito

Steven: Sim, e algumas vezes fica claro que não é o ator que está segurando o telefone e sim uma outra pessoa. É horrível! Então, Peter veio com a ideia. Eu lembro dele dizendo “Eu vou colocar o texto da mensagem na tela” e eu respondi com a minha presciência de costume “isso vai ficar uma porcaria!”. Então fui até a sala de edição onde ele já estava fazendo os testes e achei que ficou incrível. Adorei o resultado, como já tinha previsto anteriormente. Então voltei a escrever o primeiro episódio, “Um Estudo em Rosa”, mas não focando apenas nas mensagens de texto, mas diversas outras coisas, como se ele já tivesse aceitado que seria daquela forma. Então, no momento em que Paul recebeu o roteiro, ele achou que tínhamos ido além. Mas a ideia veio dele.

Moderador: É uma das coisas que se destacam de outros programas de TV, onde estas coisas acontecem.

Mark: Hoje em dia quando assisto a uma cena em que cortam para a imagem da tela do celular eu acabo achando bem antiquado. E muitas pessoas agora mudaram a fórmula. Em “House of Cards”, David Fincher faz isso explicitamente por causa de Sherlock. Acho um tanto estranho, mas acho que todo mundo deveria fazer dessa forma agora… acaba poupando bastante tempo.

Steven: Eu fui para o lançamento da série Cucumber e Russel (T. Davis) veio até mim e disse “Me desculpe, mas nós utilizamos o recurso do texto aparecer na tela também. Me desculpe!” E eu disse você tem todo o direito de fazer isso, acho que será a forma a ser utilizada agora. Ele agradeceu e então me deu 10 libras! (risos) Ele me deu 10 libras e foi ótimo! 10 libras de David Fincher agora? Telefona pra ele!

Mark: 10 dólares não é a mesma coisa! Mas também temos que falar da grande contribuição que o nosso editor Charlie Phillips, que infelizmente faleceu recentemente, deu para a série. Ele foi uma pessoa maravilhosa, incrível e um inovador! Charlie era uma daquelas pessoas em que você falava “Você acha que nós poderíamos...?” e ele respondia “Sim! Eu já fiz isso” E daí ele já tinha um arquivo e meio que instintivamente já sabia como fazer as coisas, ele era um cara incrível.

Steven: Eu conheci Charlie quando estava produzindo um programa chamado Jekyll que ninguém nunca assistiu.
(Barulho na plateia)
Steven: Parem com isso! Seus mentirosos! Recordo que estávamos bem confusos sobre como editar algumas sequências do programa e eu lembrei de Matt Lipsey (diretor) dizendo “Eu sei exatamente quem pode resolver isso pra gente” e então foi assim que conheci Charlie. Charlie chegou com o seu kit de ferramentas e vários computadores que eu nunca tinha visto antes e nos livrou do problema, achei ele um gênio, um tipo de às dos filmes. Então quando Sue teve a brilhante ideia de juntar Paul McGuigan com Charlie, os dois combinaram de forma incrível! Porque Paul filmava de forma inteligente e impressionante, ao passo que Charlie fazia as edições também de forma inteligente e impressionante e os dois acabavam competindo entre si sobre o quão insana poderia ficar a cena. Quantas formas de enxugar a cena, quantas formas diferentes de cortar de uma cena para outra poderiam existir. Então, uma enorme quantidade de coisas que fizeram e ainda fazem com que a série funcione ocorre quando as pessoas pegam essas idéias e - e isso é uma coisa que Paul disse - colocam como se Sherlock também estivesse por trás das câmeras. E Sherlock é um homem que vê complexidade e trevas em todos os lugares que ele olha. Você olha para alguma coisa e não vê absolutamente, ele olha para o mesmo lugar e vê informações e horror em cada quadro, e isso é o que você adquire a partir da combinação entre Paul e Charlie.

Moderador: Quais elementos vocês concordaram que tinham que estar presentes na primeira temporada de Sherlock e vocês discordaram em algo sobre a produção?


Mark: Bem, como vocês sabem, todo o projeto nasceu da nossa paixão de infância por Sherlock Holmes então há certas coisas imutáveis, não? E também tem o fato de nós termos amado os filmes de Basil Rathebone que, obviamente, trouxeram os personagens para os dia de hoje. Se você prestar atenção nesses filmes, irá notar que havia pessoas bem espertas que já estavam fazendo esse tipo de coisa. Eles fizeram os buracos de bala na parede, que originalmente é Victoria Regina e é o V de lapela de um homem, eles já pensavam nessas coisas, por isso tivemos um ponto de partida a partir das inovações que foram apresentadas ao público já nos anos 40. No mais, sabíamos que, obviamente, os personagens precisariam ser muito mais jovens do que eles normalmente são, pois nós começaríamos a gravar a história desde o início, o que em si foi muito emocionante pois raramente foi feito dessa forma, no caso, me refiro ao primeiro encontro dos dois. Eu me lembro que tinha uma espécie de documento de campo em que o descrevemos como um jovem magro, pálido que está na Internet todas as noites debruçado sobre registos criminais e fotografias do necrotério da polícia e coisas assim. É muito parecido com um monte de gente nos dias de hoje.
(Risos da plateia)
Mark: Ele também é um detetive consultor e tiveram algumas coisas que foram fáceis de adaptar e outras que tivemos mais trabalho, sendo a mais trabalhosa de todas uma forma de adaptar a investigação forense de forma que ela ainda fosse relevante no século 21. O que acabamos decidindo foi que, embora a Scotland Yard agora faça um monte de coisas que Sherlock Holmes já tinha feito pela primeira vez ainda na época vitoriana, ele ainda detém um super cérebro que pode fazer todas as conexões que ninguém mais pode. Uma vez que decidimos que isso ainda seria relevante para o personagem, vemos que ele é capaz de julgar, a partir da mancha em sua gravata, que você matou alguém esta manhã.

Steven: Eu lembro também que nós queríamos que o personagem fosse uma pessoa feliz. Ele deveria ser alguém que realmente apreciasse bastante a sua vida, porque durante os anos, de forma muito produtiva e muito brilhante, o personagem vinha sendo retratado meio que como um maníaco depressivo, e feliz e -

Mark: Torturado

Steven: Torturado. Isso resulta em um trabalho incrivelmente brilhante. Robert Stephens e Jeremy Brett nos deram esse estereótipo de Sherlock Holmes que é poético e brilhante. Mas que, na verdade, não está no original, apesar de ser uma interpretação incrível. Porém era hora chegada a hora de puxar a alavanca para o outro lado e dizer: “Bem, apesar de todos pensarem que Sherlock é um homem esquisito, estranho e aterrorizante, na verdade ele é realmente muito feliz.”. E Sherlock e John resolvendo crimes juntos, estão tendo a melhor época de suas vidas. Eles adoram!
E havia um outro fato - que nós não tínhamos percebido até termos concluído a primeira temporada: nós olhamos para aqueles dois caras naquele apartamento bagunçado e pensamentos que aquilo parecia um episódio de “'Men Behaving Badly' só que envolvendo crimes”.
(Gargalhadas da plateia)
Mark: Esse seria o título série (Steven ri)

Moderador: Logo na primeira cena, em que vemos Sherlock com um chicote na mão e ele aparece espancando um cadáver.

Steven: Essa cena também estava na história original

Mark:
Durante a nossa empolgante viagem de trem, debatemos sobre diversas coisas que estavam na história original, mas que nunca haviam sido feitas. Algumas coisas se tornaram tão familiar com o passar dos anos e sim, é exatamente essa a descrição que Stamford fornece ao Watson antes de apresentá-lo a Sherlock Holmes: '… tem esse cara que está à procura de um apartamento e eu o encontrei batendo cadáveres em uma sala de dissecação para avaliar a extensão de hematomas após a morte '. Lembro-me de que quando eu li,  tinha uns dez anos eu a minha reação foi "O QUE ..?"
(Gargalhadas da audiência e Steven)
Mark: E é impressionante que coisas excitantes como essa nunca tivessem sido feitas

Steven: Nós frequentemente recebemos elogios por coisas que já existiam no original. Eu lembro de uma das primeiras reviews sobre a série dizia 'com um toque de modernidade, eles se referem ao personagem como um detetive consultor". E é exatamente assim que ele se descreve na história original.

Mark: A guerra no Afeganistão, que foi onde tudo começou, realmente foi uma terrível coincidência que dá início a toda trama. 

Moderador: Vamos falar sobre os personagens coadjuvantes agora como Sra. Hudson e Lestraide

Mark:
Lestrade

Moderador: Lestrade… muito viril e muito simpático, e mais uma vez, feito de uma forma deliberada, você tinha que fazê-lo diferente das outras interpretações?
 

Steven: Bem, é realmente uma tarefa difícil, pois a forma que Doyle retrata Lestrade varia um pouco, não é mesmo? Mas usamos como base uma história fantástica chamada “Os seis bustos de Napoleão”, onde Lestrade diz para Holmes após a solução do mistério "Não temos inveja do senhor, na Scotland Yard. Não, senhor. Temos mesmo é muito orgulho e, se for até lá amanhã, não haverá um homem, desde o mais velho inspetor até o guarda mais novo, que não tenha prazer em apertar-lhe a mão.". Nos baseamos nessa história, onde o inspetor Lestrade percebe o quão talentoso Holmes é e é inteligente o suficiente para reconhecer que Sherlock Holmes o é ainda mais que ele. Um inspetor muito bom, que realmente admira Sherlock, só que Sherlock é muito imbecil para notar isso.
(Gargalhafas da audiência)
Steven: Esse é o tipo de relacionamento que eles tem. Uma das provas que temos aparece logo em um dos primeiros episódios quando John pergunta a Lestrade 'por que você trabalha com ele? e ele diz "porque eu acho que ele é um grande homem e, se tivermos sorte, um dia ele pode ser um homem legal também'. Lestrade sabe o quão incrível Sherlock Sherlock pode ser e o detetive nem percebe que o inspetor o admira. E é aí que mora a estranheza e a alegria daquela relação.

Mark: É também aquela coisa de que queríamos ter uma espécie de ambiente de convívio. Eles não seriam tão unidos se realmente não gostassem um do outro. Especialmente no que tange John e Sherlock que têm grandes momentos, discussões e brigas homéricas, justamente pelo fato de Sherlock ser insuportável. Porém, ainda assim, queríamos que as pessoas que convivem com eles quisessem estar próximas aos dois, mesmo assim.
Nós também concordamos que, com o fato de termos escalado Rupert, se Sherlock não estivesse presente, o show seria sobre ele. Ele é o melhor detetive da Scotland Yard - é isso o que Sherlock diz sobre ele nas histórias originais, de modo que para lidar com o irritante detetive consultor, Lestrade tenta agir de forma diferente. Já sobre a Sra. Hudson, que acabou crescendo se tornando um grande personagem na nossa adaptação - se compararmos ao pouco espaço que ela teve nas outras interpretações - realmente não havia praticamente nenhum detalhe sobre a história dela e nós acabamos elaborando uma história de plano de fundo para Una (intérprete da Sra. Hudson).

Moderator: Sim, ela comanda um cartel de drogas e ainda pratica pole dance

Mark:
Isso que fazia era o marido dela. Bem, não a parte do pole dance

Moderador: Como vocês decidiram as três histórias que estariam presentes na primeira temporada, muitos pensariam de imediato que “Cães de Baskerville” estaria já entre primeiros episódios.

Mark:
Bem, o óbvio era começar com o primeiro conto porque “Um Estudo em Vermelho” raramente é feito. Então nós quisemos que o próximo episódio envolvesse uma espécie de quebra de códigos e por isso acabamos pedimos a Steve Thompson para produzir “O Banqueiro Cego” já que este lembra um pouco o conto “Os Dançarinos”, mas apenas no que diz respeito a existência dos códigos. E então sabíamos que iríamos apresentar Moriarty e o meu conto favorito é “Os planos do submarino Bruce-Partington” que é uma das histórias presentes em “O Grande Jogo”, porém tínhamos que fazer com o formato de 90 minutos, então tivemos que dividi-lo e acrescentar diversas cenas originais ao episódio. Foi somente quando estávamos caminhando para a segunda temporada que pensamos “vamos fazer os três episódios mais famosos”.

Moderador: Todo herói precisa de um vilão e Holmes encontrou um grande vilão em Moriarty. Na hora da escolha do elenco, vocês acabaram optando por alguém relativamente com a mesma idade. Porém me recordo em uma entrevista você dizendo que na ilustração de Sidney Paget, Moriarty aparentava ser um velho gerente de banco.

Steven:
Ele aparentava, mas isso não foi uma crítica, ele realmente parece com um. Um dos problemas com Moriarty, no que diz respeito ao original, é que Doyle descreveu o vilão tão bem que praticamente todo mundo copiou Moriarty. Você leu aquela cena em “O Problema Final” quando Holmes e Moriarty se encontram? É como se você estivesse se deparando com todos os filme de James Bond ali. Porque esse personagem foi tão implacavelmente copiado, em grande parte por Ian Fleming, que seria um clichê fazê-lo novamente. Teríamos que ir por um caminho diferente. Na verdade, não tínhamos, mas decidimos que iríamos. Pensamos que poderíamos surpreender. Na época vitoriana a ideia de crime organizado era nova. Era uma ideia nova e aterrorizante – "e se a rede de crimes fosse organizada?” - Assim como a ideia de um chefe do crime como Moriarty também era aterrorizante na época. Nós pensamos “será que podemos fazer um Moriarty que é mais parecido com um homem-bomba?” porque essa é a ideia aterrorizante nos dias de hoje, um homem tão enlouquecido, e tão entediado e tão mal que ele até mesmo se mataria para ganhar. Nós pensamos que esta seria a ideia de terror da nossa época.

Mark: A ideia principal realmente era ter Andrew no elenco, isso já estava formulado, mas ele foi simplesmente incrível e tudo tomou forma após o seu desempenho. O charme e, em seguida, o desarranjo absoluto.

Moderador: Gênios podem ser insanos? Se tomarmos por base aquele encontro final deles no telhado, podemos dizer que vilões podem ser tão inteligente quanto podem ser insanos?

Steven:
Bem, podem haver detetives particulares amadores que são consultados pela polícia? Nós estamos no universo de Sherlock Holmes, nós realmente nunca alegamos que seria um retrato exato e preciso da Grã-Bretanha contemporânea (risos).


Moderador: Também neva no Natal em Baker Street só isso já prova que não estamos lá. Agora, o namorado de Molly, aquele pobre coitado...
Steven: Você tá se referindo a Jim Moriarty?

Moderador: Não, o de terceira temporada. 
Mark: Oh, Tom!

Steven: Porque eu realmente acho que a grande questão que paira sobre Sherlock é – Será que Molly ...

Moderador: Sim, isso é o que eu estava tentando dizer. Eu sabia que você ia falar disso ...

Steven:
Quer dizer, será que ela...

Moderador: Você acha que eles transaram?Steven: Bem, eu não sei. Só acho que é muito, muito terrível se pensar que esta adorável mulher, que é um pouco apaixonada por Sherlock Holmes, acidentalmente transaria Moriarty.
(Comoção e risos na audiêcia)
Steven: Como você lidaria com isso quando fosse para casa à noite?
(Aplausos e mais risos)
Steven: Quer dizer, se um dia ela realmente fosse – mas vamos ser sinceros aqui, ela não iria – falar com Sherlock a respeito, como ela traria isso à tona? "Sabe que o seu arqui-inimigo? Bem ..." (risos) "Mas você é muito melhor." Nós não vamos fazer esse episódio, podem relaxar.

Moderador: Agora, sobre a relação entre Sherlock e Mycroft. Esta se desenvolveu bastante da primeira até a terceira temporada, e vê-los ao longo de todo esse caminho, me faz perceber que Mycroft é um excelente irmão mais velho.

Mark:
Muito obrigado!
(Aplausos e comoção da plateia)
Moderador: Ele realmente se importa com Sherlock.

Mark:
Sim, claro, é justamente isso o que eu estava falando anteriormente. Nós nos baseamos na adaptação de Billy Wilder “A Vida Íntima de Sherlock Holmes”, em que a relação de Sherlock e Mycroft é muito temperamental, mas ainda assim, mesmo em meio àquela frieza , há um grande senso de cuidado. Há uma bela cena no final, onde Christopher Lee escreve para Robert Stephens e você percebe que é muito reservado mas está claramente representando a relação dos dois. Essencialmente, a ideia é que Mycroft é esse tipo de homem de gelo que tem a missão de ensinar ao seu irmão mais novo como remover os laços emocionais. Ele conseguiu, já Sherlock não. E eu acredito que Mycroft quer que Sherlock seja mais como ele. Algo que ele nunca irá acontecer. Mas vem do amor que ele sente pelo irmão sim.

Moderador: Quando ele está servindo o chá e diz “Serei a mãe” e Sherlock responde “Foi a infância inteira assim”

Mark:
Sim

Moderador: Bem, nós temos mais dez minutos. Se alguém quiser fazer alguma pergunta esse é o momento

Pergunta da plateia: A pergunta é para os dois. No episódio “A queda de Reinchenbach”, quando Sherlock está no telhado, embaixo aparece escrito a palavra “Patológico”. Aquilo já estava previsto ou foi acidental?


Mark: Não, já estava no prédio! Eu lembro de na época ter pensado “'bem, isso será bastante bom”. A verdade é que recebemos um monte de perguntas a respeito do que está escrito nas ruas das locações e coisas do tipo. Tivemos cerca de três horas para filmar aquilo, não existiria a menor possibilidade de pararmos toda Londres para apagar aquela palavra, foi apenas uma coincidência. Mas uma muito boa!

Pergunta da plateia: Eu gostaria de perguntar para vocês sobre o relacionamento de Mary Morstan e Sherlock Holmes, pois o relacionamento deles parece muito com o relacionamento entre irmãos.

Steven:
Estamos sempre nos guiado por Doyle, não sabemos melhor do que ele. No original, Sherlock Holmes e Mary Morstan se davam perfeitamente bem. Entretanto nas raras aparições dela nas versões cinematográficas, sempre foi retratado como se eles tivessem relacionamento conturbado, mas por que isso? Não há nenhuma razão para isso. Então, nós realmente gostamos da idéia de que Sherlock imediatamente gostaria de Mary, e Mary imediatamente gostaria dele, de uma forma que uma forma um tanto quanto irritante para John. Tivemos um monte de propostas que nós sequer usamos, tínhamos ideias de que ela iria tomar aulas de violino com Sherlock e John não saberia nada a respeito, e coisas assim. Eles são apenas grandes amigos.

Mark: O que eu acho interessante é que é justamente pelo fato dele gostar e se importar com ela que o seu julgamento sobre ela acaba ofuscado e ele termina sem perceber o que ela estava tramando.

Steven: Uma coisa interessante que Mark disse quando eu estava começando a escrever “Um Escândalo na Belgrávia” foi: "E se Sherlock estiver certo? E se ele realmente estiver certo quando  diz que emoções, afeto, amor, desejo acabam por atrapalhar as suas deduções e ele precisa se manter longe desses sentimentos?". E essa foi a peça chave para tudo o que aconteceu. A peça chave, tanto para Irene quanto para Mary, foi o momento em que Sherlock se deixou levar pelos sentimentos e acabou se tornando um inútil. Ele não percebeu o óbvio sobre Mary e passou a maior parte de “Escândalo em Belgrávia” vagando por aí como um idiota. Eu vou escrever uma história onde Sherlock Holmes faz algo útil, vou fazer isso na próxima vez, prometo! Mas isso é  interessante. Ele tem razão nesse ponto. Afeto é algo que ele não pode deixar entrar em seu cérebro.

Pergunta da platéia: Se vocês tivessem a chance de colocar no elenco dos próximos episódios qualquer ator que vocês quisessem, quem vocês escolheriam?

Mark:
Angela Lansbury.
(Risos, aplausos e comoção na plateia)
Mark: Que agora é a minha mais nova amiga, Angela. Eu entreguei o Oliver Award para Angela na semana passada e foi INCRÍVEL. Ela é incrível e hoje essa será a minha resposta a essa pergunta.

Steven: Eu não posso competir com essa resposta, ela foi simplesmente brilhante

Pergunta da platéia: Eu tenho uma pergunta para você ambos. Eu aprecio muito a freqüência de referências aos romance de Doyle, os pequenos detalhes como vocês mencionaram que aconteceu em “Os planos do submarino Bruce-Partington”, daí eu gostaria de perguntar, como é o processo de inserção dessas referências na trama principal?

Steven: Bem, não há nenhum processo. Vamos ser sinceros, nós somos apenas fãs fazendo uma série de um personagem que gostamos. A gente gosta disso, de colocar nos episódios referências dos livros que os fãs mais atentos vão sacar na hora. A Sue sempre chama a nossa atenção quando percebe que estamos exagerando. A outra coisa, como Mark falou anteriormente, é que existem coisas tão belas no trabalho de Doyle, que ninguém nunca trabalhou, e nós nos satisfazemos em adicionar esses fragmentos do original que as pessoas ainda não conhecem.

Mark:
Nós realmente não inserimos as coisas de forma premeditada, porque tende a ser algo mais orgânico...

Pergunta da plateia: Primeiramente eu gostaria de agradecê-los por terem contratado Benedict Cumberbatch porque ele é uma evolução incrível!

Mark:
Ele agora que paga a gente

Pergunta da plateria: Bem pensado. Também gostaria de agradecê-los porque esse é um sonho que se tornou realidade e eu sempre quis perguntar a vocês...

Mark:
Que sonho estranho...

Pergunta da platéia: Eu sei! Eu tenho um monte deles. Enfim, após assistir ao piloto, eu gostaria de saber que tipo de procedimento aconteceu para determinar as diferenças entre o  piloto e  o episódio que foi ao ar, porque ao mesmo tempo em que essas diferenças são muito sutis, elas também são muito óbvias. Eu teria assistido ao piloto como um episódio tranquilamente, mas em comparação com o que foi ao ar, foi um rascunho. Eu queria saber como foi para vocês fazer essas mudanças.

Steven:
É nesse ponto que você normalmente acorda?

Pergunta da plateia: Sim! Pois é nessa hora que eu não tenho a resposta 

Mark: É nessa hora que o monstro verde gigante se revela.
Bem, tiveram muitas coisas. Normalmente você faz algo e depois pensa que poderia ter feito de forma diferente. Por exemplo, eu não gostei da Sra Hudson como proprietária da loja ao lado, não achei que funcionou. Eu também não gostei dos trajes do Benedict nesse piloto, ele não parecia inteligente o suficiente. Mas uma das coisas mais fundamentais foi que, ao descobrirmos que a série consistiria em filmes de 90 minutos, nós vimos a necessidade de antecipar a introdução de alguns personagens que só seriam apresentadas bem mais tarde, se fosse uma série normal. Moriarty, por exemplo, apareceria no episódio seis, assim como Mycroft. Tiveram muitos pequenos detalhes, não acha? Isso sem esquecer que, fundamentalmente, Paul e Charlie fizeram tudo se transformar em algo mais cinematográfico e excepcional, essa realmente foi a diferença crucial.

Steve: Para sermos justos com esse piloto, a verdade é que quando as pessoas o assistem sem terem assistido a série, acham que ele foi ótimo. Quando gravamos esse piloto realmente não sabíamos o que estávamos fazendo – o que é sempre o caso no início de uma produção - então, quando nós tivemos a chance de filmá-lo novamente só que dessa vez com Paul e Charlie, este seria o quarto episódio gravado, visto que “Um Estudo em Rosa” foi o último episódio que filmado da primeira temporada. Dessa forma, a quantidade de coisas que tínhamos aprendido era imensa. A verdade sobre pilotos é que eles não deveriam ser exibidos, deveria ser permitido a você a possibilidade de gravá-lo e então gravá-lo novamente. Ninguém gosta do resultado de um primeiro episódio justamente pelo fato de você ainda não ter aprendido o suficiente.

Moderador: Creio que estouramos o tempo, dessa forma, todos de pé para uma salva de palmas para Steven Moffat e Mark Gatiss

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