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Editorial: Criadores, fãs e a Era do Senso de Propriedade



Senta que lá vem textão!


Mas, antes de começar, é bom deixar bem claro que essa será a primeira e última vez que falaremos sobre essa discussão.

Tomando emprestado o título de uma excelente matéria do Los Angeles Times, na qual criadores de outros programas falam sobre a interferência do público em seus trabalhos chegando a níveis extremos de agressividade como assédio moral, ameaças de morte e brigas, a gente resolveu publicar este texto para tirar de vez o elefante da sala e esclarecer algumas questões que andam sendo distorcidas pelas redes sociais a fora. O que não nos surpreende.

Essa semana traduzimos a polêmica entrevista do Steven Moffat e do Mark Gatiss, durante a San Diego Comic Con - compartilhada pelo próprio Gatiss em seu Twitter - e desde então temos recebido diversos comentários a respeito da divulgação do material.

Sim, a gente sabia que a entrevista causaria discussão e opiniões controversas, afinal, nós também fazemos parte do fandom e sabemos como a coisa funciona. Mas digamos que fomos surpreendidas pela quantidade de mensagens de ódio contra a página e a equipe pelo simples fato de termos traduzido a matéria. A justificativa: "Vocês não problematizaram as coisas horríveis que eles disseram sobre os fãs" ou "Vocês concordaram com os comentários homofóbicos deles".

Bom, se eles tivessem agredido os fãs ou sido homofóbicos, essas críticas seriam pertinentes. O fato é eles não foram, e não somos apenas nós que achamos isso: até mesmo sites como o Sherlockology receberam sua cota de crítica por acharem a entrevista uma boa entrevista. Mas, além disso, a única parcela do fandom que viu "homofobia e agressão" foi aquela que teve suas teorias e certezas frustradas. Todo o restante, como nós, não viu problema no que eles disseram (a julgar pelos comentários que recebemos e que vimos em grupos e sites tanto brasileiros quanto internacionais). Inclusive pessoas da comunidade LGBTQ que não, não estão internalizando homofobia. Esse assunto é amplo demais para se resumir a uma entrevista de dois criadores de um programa específico. Qualquer pessoa adulta, principalmente LGBTQ, sabe discernir entre uma situação real de homofobia: na vida, em outras falas, em agressões verdadeiras, em outros programas, na cultura pop em geral, na política etc. O que aconteceu no fandom de Sherlock só não é uma dessas situações, por mais que estejam tentando também distorcer isso.

Se o ship não vai acontecer e se eles estão irritados porque as pessoas estão pegando falas fora de contexto e distorcendo o que eles dizem para colocar dentro de uma teoria da conspiração, isso não faz deles homofóbicos, assim como também não faz de ninguém que não quer ver esse ship e nem nenhum ship na série homofóbicos. O mundo vai além de um relacionamento entre Sherlock e John e cada um tem o direito de gostar ou não de ship ou de qualquer outro aspecto da série. Calha da discussão ser entre dois homens, mas poderia igualmente ser entre o Sherlock e a Joan de Elementary que seria absurdo ou, no mínimo, levantaria controvérsias da mesma forma - embora as pessoas se importem menos com essa série, já que ela é tão distorcida que não convenceu os fãs de Doyle e não tem um fandom apaixonado como a série da BBC. Por que será?

Não faz o menor sentido acusar de homofobia os criadores que estão irritados justamente porque esvaziaram uma fala importante deles sobre representatividade gay na televisão, principalmente para crianças em formação, e reduziram isso à sexualidade de Sherlock e a Johnlock. Como dissemos, a questão da representatividade gay vai muito além desses dois personagens específicos de uma série específica. E grande parte do fandom casual não está obcecado com teorias e ships. Com internet, redes sociais e algoritmos, é fácil as pessoas se fecharem em bolhas e acreditarem que a maior parte do mundo pensa como elas (é justamente o que redes sociais como o Facebook fazem, procurem saber), mas o fato é que Sherlock é uma série que passa no canal aberto no Reino Unido (o que muda as regras do jogo, em canais fechados a coisa funciona de forma diferente, já que o público é menor) e que atrai quase 10 milhões de espectadores apenas no dia de sua estreia e apenas no Reino Unido. Dez milhões. Só na estreia. Só no Reino Unido. É uma série transmitida para milhões de pessoas no mundo inteiro. Isso é muito mais gente do que o fandom que está diariamente no Tumblr e em outras redes sociais (no Brasil, o fandom é irrelevante: a maior página sobre série, a Sherlock Brasil, não chega a 50 mil seguidores; o maior grupo no Facebook não tem 10 mil pessoas - e menos ainda são as ativas). Então vamos colocar a coisa em perspectiva: a maior parte dos espectadores de Sherlock é aquela que não está em fandom algum. E os criadores sabem disso.

E por que estamos escrevendo isso? Como dissemos, porque a maior parte das pessoas que assistem Sherlock não estão preocupadas com ships e teorias. Logo, eles falam para uma audiência ampla. Logo, quando eles escrevem a série, quando eles vão a eventos falar sobre a série, quando eles vendem a série para outros países, quando eles recebem prêmios pelo trabalho na série, eles estão pensando na série como uma história ampla, que vai além daquilo que uma parte do fandom exige ver. Há criadores que acabam se rendendo e fazendo fan service para manter uma audiência específica (e acabam descaracterizando toda a série no processo), mas esse não está sendo o caso de Gatiss e Moffat: quando tentaram trazer o Tumblr para a série na terceira temporada, tiveram as maiores críticas que já receberam. Dessa forma, eles têm toda razão em não querer que suas falas sejam interpretadas o tempo todo como pistas de relacionamentos amorosos e afins. Isso é reduzir o trabalho deles ao universo das teorias dos fãs, como se não houvesse mais nada ali além de um romance enlatado. E quem está há 6 anos assistindo e acompanhando a produção da série, sabe que não é.

Note ainda que eles não chamaram ninguém de louca por ver pistas Johnlock na série. O que eles disseram é que tem sim esse mal-entendido proposital dentro da série, e todo mundo percebe isso e eles já explicaram o que significa: "Toda a noção, a ideia de eles possivelmente serem um casal gay é inspirada pela piada no filme "A vida íntima de Sherlock Holmes", do Billy Wilder, nossa versão favorita. E nós achamos que seria uma boa ideia usar isso. No século 21, isso não seria uma questão. As pessoas só presumiriam. Talvez a gente tenha repetido [essa piada] muitas vezes, não sei. Mas isso é tudo. Ele diz explicitamente que não está interessado. Não significa que ele não poderia ficar. Não significa que há algo errado com isso. Eu sou um homem gay. Isso não é um problema". Ninguém está dizendo que o pessoal tirou isso do nada. O que estão dizendo é que isso foi além do que eles pretendiam, e as pessoas pegaram justamente todos os momentos em que eles criam essa situação aparentemente ambígua e tomaram como provas de uma teoria Johnlock.

Mais importante ainda: eles não estão dizendo que as pessoas não devem shippar. Na mesma entrevista, eles dizem com todas as letras que acham ótimo que cada um tenha sua interpretação e que faça suas fanarts e fanfics com os dois juntos. Tudo o que eles estão dizendo é que na versão deles, na série que eles estão levando para o ar, não vai acontecer um beijo ou relacionamento amoroso entre os dois. É SÓ ISSO. Mas nós podemos continuar shippando o que quisermos, da forma que quisermos e aproveitando o subtexto que tem na trama. Ninguém disse que não e ninguém disse que é errado.


A questão é que quando alguém que não gosta do ship, seja pelo motivo que for, comemora porque o ship não vai acontecer, isso não necessariamente é um ataque pessoal a quem shippa. As pessoas têm todo o direito de ficarem felizes porque não vai ter um ship, da mesma forma que aquelas que torcem para que tenha ficariam felizes se rolasse. O que a gente pode dizer é que em nossas redes quem sempre começa a discussão é o fandom que shippa, dizendo que as pessoas não sabem "somar 1+1", com deboches sobre quem diz que a série é sobre os casos, com memes sem fim e com perseguições a todo mundo que ache Johnlock algo sem importância. Um exemplo prático: John e Mary são casados na série e estão, no final da terceira temporada, esperando um bebê. Certo? No dia dos namorados este ano, nós postamos uma foto do casal. Recebemos muito hate de pessoas que shippam Johnlock apenas por causa disso. Fomos chamadas de heteronormativas por causa disso. Diziam que tinham "nojo" da gente porque a gente "shippava John e Mary". OI? 


Então, não dá para se fazer de vítima depois que sai uma entrevista dessa e as pessoas comemoram ou fazem piada. É uma via de mão dupla: você posta meme, debocha, faz piada e agride. Uma hora vão fazer isso com você também. Se não há maturidade para lidar com isso, não se deve nem começar. Curte seu ship com seus amigos, nos seus grupos e fica de boa. Se rolar, ótimo. Se não, vida que segue.

Por isso, é um tanto absurdo estarmos sendo atacadas por algo que NÃO falamos e mais absurdo ainda é estarmos sendo criticadas pelo fato de termos publicado! Sabe aquela história de querer atirar no mensageiro? Pois então… Falaram que a entrevista era ofensiva, que éramos homofóbicas (sem nem ao menos conhecer as integrantes da equipe), que éramos anti-johnlock (e não que a gente precise se justificar, mas metade da equipe apoia o casal) e que estávamos indo contra o fandom da série. Nem sempre a opinião dos produtores reflete o que acreditamos (ou até o que muitos de vocês acreditam), só que, nesse caso, muitos defenderam a posição de que somos homofóbicas e agressivas por termos publicado a entrevista.


O fato é que já deixamos claro diversas vezes que, quando o assunto é a produção da série, a gente se pauta no que os produtores falam e jamais no que o fandom teoriza. E se eles dizem que é isso, então é isso. E se eles estiverem mentindo e não for, ótimo. Não estragamos a surpresa de ninguém e nem atrapalhamos o trabalho deles.

No mais, estão espalhando por aí que perfis estão sendo bloqueados por nós no Twitter e no Facebook. Então, queremos deixar claro que, antes da polêmica dessa semana, somente uma pessoa tinha sido bloqueada na nossa fanpage por comentários (vejam só!) homofóbicos. Entretanto, com tudo o que tem acontecido, estamos bloqueando também pessoas agressivas que estão nos ofendendo de forma deliberada nas redes. O trabalho que fazemos é gratuito e feito com gosto, e de maneira alguma a gente menospreza o que vem do fandom: estamos sempre tentando atender e responder dúvidas e mensagens, fazendo promoções, concursos e eventos que sejam divertidos e inclusive promovemos concursos de fanarts e fanfics - todos foram um sucesso devido a variedade de temas e de abordagem aos personagens da série.


É bom ressaltar que em momento nenhum bloqueamos pessoas por pensarem diferente da gente (até porque a administração é feita por pessoas com opiniões bem diversificadas) e é importante informar também que algumas pessoas andam distorcendo nossa posição com relações a alguns temas e para essas pessoas, recomendamos que, em caso de dúvida, leiam os textos no nosso blog. A Sherlock Brasil é uma página criada para repassar informação, a gente se posiciona através de textos no blog. Como um grupo de nove pessoas, não podemos falar por todo mundo na página. As opiniões individuais de cada pessoa da equipe não refletem a equipe inteira.

Importante ressaltar que: você não verá a página, ou os membros da equipe, fora de seu próprio ambiente, indo a tópicos em outros grupos e páginas para agredir, ofender ou ridicularizar quem quer que seja, por motivo nenhum.

Apesar de recebermos o apoio da maioria do nosso público, infelizmente lamentamos que, com tanta coisa interessante que a série ainda pode nos proporcionar, algumas pessoas ainda se limitem a fazer do fandom uma guerra de egos.

Equipe Sherlock Brasil

Para saber quem somos, clique aqui.

Para ler nossa defesa do ship Johnlock, clique aqui.

Para ler a análise O problema é que os Johnlockers estragaram o Johnlock, clique aqui.


"[A interferência dos fãs] Não é uma coisa ruim. É uma questão. É algo que conseguiu manter Star Trek na ativa. É algo que trouxe Doctor Who de volta. Fãs ainda são criadores. Fãs exigem e fazem as coisas acontecer. Na maior parte das vezes, isso é ótimo. Mas isso pode se tornar uma outra coisa, e quando acontece isso, adentra lugares estranhos em que as pessoas acham que por elas assistirem um programa de TV ou comprarem um livro, os criadores devem alguma coisa a elas por isso. Assistir esse tipo de loucura que às vezes acontece é difícil".  - Neil Gaiman, escritor.


6 comentários:

  1. É isso! Curtam a série e pronto!!!

    Viva Moffat e Gatiss pelo presente que nos dá a cada episódio. E quem quiser que conte sua versão... Em outro lugar 😛

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    1. Concordo plenamente!

      Passei um bom tempo procurando uma série que adapta-se as histórias de Doyle. Cheguei a ver alguns episódios de Elementary, mas a série não me cativou estava mais para uma típica série policial americana. Descobri Sherlock no final da segunda temporada e me apaixonei pela série, cheia de referencias clássicas, com um Sherlock frio e calculista, uma verdadeira maquina que nem nos livros.

      Se começarem a distorcer a história para se adaptar aos gostos dos fãs, a série perde o seu encanto.

      Conselho meu para todos aqueles que parecem que não tem mais nada para fazer a não ser ficar perdendo tempo acusando os outros de homofobia: ou senta e curte a série, ou vai procurar outra para ficar atormentando.

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  2. As pessoas estão perdendo o senso ultimamente, e fazendo das suas verdades a verdade de todos. Tbm não vi nada de mais na entrevista, e vejo na série exatamente o que eles falaram na entrevista, fizeram uma brincadeira, que agradou, foi divertida, mas a vida dos personagens não se resumiu naquele momento, tantos outros momentos tiveram dizendo e mostrando o contrário. Mas, ok, cada um vê o que quer e o que agrada. Amo essa página, os administradores são ótimos, as matérias maravilhosas, e digo aqui que eu deixei de curtir páginas durante a semana justamente por estarem propagando esse ódio todo em quem pensa o contrário deles.
    Como comentou outra pessoa aqui, cada um que conte sua versão, em outro lugar.

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  3. "questão é que quando alguém que não gosta do ship, seja pelo motivo que for, comemora" - A maioria é porque se incomoda sim com a ideia de que os protagonistas possam ser um casal. Parem de passar paninho pra gente homofóbica.

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    1. Desculpe, mas você tem algum dado que comprove isso, ou é só sua opinião? Você conhece essas pessoas, sabe se elas mesmas não são homossexuais? Se não aprovam outros casais homossexuais em outras séries, filmes, livros e afins? O mundo vai além do fandom de Sherlock e do ship Johnlock. Não meça todo mundo pela sua régua.

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  4. Bem, na minha opinião, seja inconscientemente ou não, existe uma sempre presente revelação da ligação profundamente amorosa entre os dois personagens (da série, não digo do Doyle). Amor não quer dizer desejar sexualmente *sempre*. A fala que *me* provou isso, finalmente, foi no final de Empty Hearse, na cena da escada. Incrível aquela cena. Socos, cabeçadas, chororô à parte, aquela cena final disse tudo, pra mim: "I heard you". O resto é recalque!

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