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5 erros cometidos por Sherlock em sua jornada de entretenimento de alto nível a um emaranhado espetáculo


 O texto abaixo é uma tradução do artigo do site Vox. Está repleto de spoilers da quarta temporada.

Público e crítica ficaram profundamente frustrados com a quarta e possivelmente última temporada de Sherlock, que acabou com um ousado mas anticlimático final. O jornal The Guardian chamou a temporada de "uma irritante paródia de si mesma", o IndieWire disse que era "problemática" e a imprensa britânica fez rodadas com "as resenhas mais furiosamente indignadas". A Vox teve sentimentos contraditórios, em sua maioria negativos, a respeito de cada um dos três episódios.

O desenvolvimento da série não é novidade. Desde sua estreia em 2010, os criadores Steven Moffat e Mark Gatiss passaram anos prometendo coisas grandiosas para as temporadas, que ao menos tinha grandes ideias - ao lado de uma atuação estrelar, uma esperteza ligeira e uma produção belíssima - a serem desenvolvidas. Mas cada vez mais a série foi se tornando confusa, se enveredando em lapsos de lógica cocainômanos e fantasias inexplicáveis, com quase nenhum desenvolvimento de personagem para sustentá-los.

Muitos dos problemas de Sherlock se resumiram a dois fatores. O primeiro, dado à ascensão de seus dois protagonistas à categoria de astros, a série nunca sabia se sua atual temporada seria a última - e ainda não sabe. Cada temporada tinha poucos episódios, e cada episódio é centrado em recontar uma história diferente de detetive escrita por Arthut Conan Doyle. Isso não dava ao programa muito espaço para desenvolver as ideias mirabolantes que quicavam na cabeça.

O segundo problema importante: O programa se apaixonou perdidamente por si mesmo e não olhou para trás. Muito já foi escrito sobre como Moffat, que também foi o showrunner de Doctor Who durante muito tempo, é um grande fã do botão de reset - às vezes literalmente. O que isso significou para Sherlock é que as tramas nunca experimentaram consequências duradouras, as atitudes dos personagens nunca tiveram um impacto lógico em suas vidas. Mas o programa sempre apresentou esses resets frustrantes de forma alegre, como se fosse tudo parte do interminável "jogo" de Sherlock em vez dos atalhos para uma narrativa maior que eles realmente eram.

Juntas, essas duas enormes questões resultaram em uma miríade de problemas para a série, que só se tornou cada vez mais famosa com o tempo. Aqui listamos os cinco maiores problemas narrativos que Sherlock desenvolveu em suas cinco temporadas - problemas que terá que resolver se quiser satisfazer os fãs em alguma temporada futura.


1) Sherlock nunca aprende com seus erros

Através das temporadas, Sherlock agiu da mesma forma destrutiva e antipática o tempo todo. Ele repetidamente insultava e usava todo mundo que amava (e muita gente que não amava) sempre que era conveniente para ele. Repetidamente, e algumas vezes de forma violenta, ele usou John como uma espécie de rato de laboratório para seus experimentos. E ele repetidamente entrou em espirais perigosos de uso abusivo de drogas, para ajudá-lo a solucionar casos de forma ostensiva. Por tudo isso, Sherlock procedia com a presunção de que estava sempre certo - e sempre, sempre era provado que estava.

As ações violentas de Sherlock nunca tiveram consequências. A repetida chapação na droga nunca o levou a ter nenhuma complicação séria de saúde. O ato de drogar seu melhor amigo - um veterano de guerra - e o mandar a uma zona de guerra alucinógena, um gatilho para estresse pós -traumático, na segunda temporada nunca levou a maiores repercussões, só foi deixado de lado; Sherlock mais uma vez drogou a esposa de John e sua própria família na terceira temporada, sem nenhuma consequência. A falta de comedimento de Sherlock o leva a matar um homem a sangue frio, mas nem mesmo isso leva a uma punição - seus amigos simplesmente passam uma borracha na ideia de que Sherlock deve pagar por seu crime, do mesmo jeito que aceitam qualquer coisa vindo dele. Como resultado, a mesma falta de limites que o leva a assassinar Charles Magnussen na terceira temporada leva a Mary ser morta na quarta temporada.

E aí tem o uso que Sherlock fez de John em um elaborado (e nunca explicado) plano para fingir sua morte durante dois anos. Isso deveria ser considerado uma enorme traição levando a problemas sérios de confiança, no mínimo - mas ao invés disso, eles apenas brigam em um episódio e ficam bêbados o suficiente para restaurar seus laços, e o resto da terceira temporada gira em torno da questão se John deve confiar em sua própria mulher, no fim das contas.

O fim do segundo episódio da quarta temporada acena na direção desse problema, quando Sherlock pede a Mrs Hudson para usar um código - uma palavra que representa o momento em que sua falta de limites levou à morte de Mary - para avisá-lo quando ele estiver se sentindo o tal ou começando a agir sem comedimento. É o máximo de reconhecimento de remorso que ele demonstra em toda a série; mas não leva a lugar nenhum e chega tarde demais.




2) O programa prioriza os plot twists grandiosos em vez do desenvolvimento da lógica e das conclusões satisfatórias

Pode-se argumentar que Sherlock era uma série esquisita sobre um par de megalômanos - Moffat e Gatiss. O duo construiu cada episódio de Sherlock ao redor de uma trama irrealista atrás da outra, mas deixava o público esperando o tempo todo quando se tratava de resoluções de verdade. E toda vez, o programa apresentou a trama frouxa mais como uma inovação inteligente do que um final frustrante.

Por exemplo, após Sherlock fingir sua morte no fim da segunda temporada, o programa se divertiu na abertura da terceira temporada, dois anos depois, apresentando muitas teorias de fãs sobre como Sherlock foi capaz de sobreviver à queda no episódio anterior. Em vez de dar aos espectadores a resolução real, deu várias possíveis resoluções - e nunca explicou de verdade o que realmente aconteceu.

Isso era típico de Sherlock: Sempre que chega perto de apresentar um drama verdadeiro com consequências narrativas consistentes, a história parava no meio do caminho e seguia adiante, como se todo o objetivo da trama não tivesse importância. O resultado foi que Sherlock, Moriarty e Mycroft se transformaram em figuras míticas que podiam reescrever o destino repetidas vezes.

E várias vezes os fãs desafiaram Moffat e Gatiss a explicar como Sherlock poderia se safar tanto, e várias vezes Moffat e Gatiss minimizaram a necessidade de dar qualquer explicação. "Eu acho que as pessoas acham que um furo é algo que não está explicado na tela", disse Moffat em resposta às reclamações sobre a terceira temporada. "Um furo na verdade é algo que não pode ser explicado". No fim da quarta temporada, Gatiss disse às pessoas para "irem ler livros infantis" caso não quisessem ser "desafiadas" pelo emaranhado de inverossimilhanças na trama de Sherlock.

Em outras palavras, a falta de resolução de trama em Sherlock era um estudo sobre o ego do contador da história, em vez de plausibilidade. E isso deixou Sherlock parecendo um inquietação nervosa, com infinitos loops de drama que não levaram a lugar nenhum.

3) As personagens femininas consistem em acessórios vazios para Sherlock

Eis aqui como transformar Sherlock de um viciado cheio de defeitos profundos em alguém que faz com que todos a sua volta o considerem um mítico super-herói cuja inteligência os mantém a seu lado e sob sua influência: garanta que cada ação tomada por cada personagem seja sobre Sherlock.

Essa tendência é mais notável na forma como as mulheres em torno de Sherlock são escritas. Porque personagens como Molly, Mrs Hudson, Irene Adler e Mary, são escritas de forma tão minguada, para começo de conversa, que não é difícil de perceber que todas não passam, o tempo todo, de acessórios para os esquemas e o ego de Sherlock. Essencialmente, elas não têm uma agenda própria fora daquilo que Sherlock precisa que elas sejam.

Quando Sherlock convenientemente precisa de ajuda no necrotério, lá está Molly, convenientemente deixando de lado seu amor não correspondido para ajudá-lo. Quando Sherlock precisa confrontar sua humanidade através de uma atração sexual em tons de vermelho-sangue por uma mulher (já que Moffat desdenhou da ideia de que ele fosse assexual ou queer), lá está Irene Adler, uma autodeclarada lésbica, que imediatamente e inexplicavelmente se apaixona por Sherlock mesmo assim. Quando John precisa de uma terapeuta para ajudá-lo a superar o luto pela morte de Mary - surpresa! É revelado que ela só passou semanas com John para conseguir pegar Sherlock.

E aí há Mary, a única personagem independente que poderia ter removido completamente John da órbita de Sherlock. Mas ela mesma acaba se envolvendo tanto na órbita de Sherlock  que não apenas sacrifica sua própria vida por ele, mas vai tão longe a ponto de deixar uma série de mensagens pré-gravadas tanto para seu marido quanto para Sherlock, pedindo para que eles saiam para resolver crimes juntos porque eles devem permanecer juntos, ou algo assim.

A razão para esse padrão recorrente nas personagens femininas de Sherlock é clara e frustrante: Moffat já declarou antes que ele acha que a razão primeira para que as mulheres assistam Sherlock é devida à atração sexual, dizendo "toda a nossa fan base feminina acredita que elas serão aquelas que conseguirão derreter todo aquele gelo". Ele não poderia estar mais errado a respeito das mulheres e isso transparece em sua escrita.


4) Mycroft foi hiperutilizado como deus ex machina

Para que possamos acreditar que Sherlock poderia fingir sua morte por anos e voltar sem que ninguém tivesse sido mais esperto; assassinar alguém e sair impune; e jamais ter sabido da existência de uma irmã que ocasionalmente escapou de uma prisão de segurança máxima para GIFs de Moriarty para ele, nós temos que acreditar que o irmão mais velho e supostamente mais inteligente Mycroft é basicamente o deus da Grã-Bretanha.

E parece que ele é mesmo. Sherlock descreve Mycroft como: "Ele é o governo britânico". Essa parece ser toda a explicação necessária para a razão de Mycroft ser capaz de estar em toda parte, saber tudo, e manter seu irmão fora de perigo em níveis que desafiam a lógica. Em termos de responsabilidade, ele parece não ter que responder a ninguém, o que significa que Mycroft pode mover os pauzinhos necessários para manter Sherlock longe da prisão ou até de enfrentar julgamento por ter matado alguém.

O que deixa essa confiança permanente em Mycroft impressionante é que ele frequentemente toma decisões terríveis que não enfrentam discordância. Ele tenta trabalhar com Moriarty, mesmo que Moriarty seja um sociopata que causou um caos em massa e está atrás de Sherlock; ele tentou trabalhar com sua própria irmã, mesmo que ela literalmente faça lavam cerebral na cabeça de qualquer um que fale com ela.

Dito isso, a forma com que ele pareça orquestrar atos de Deus o tempo todo para compensar a postura grotesca do irmão começou a parecer menos peculiar e terno e mais como uma forma conveniente para que a série evite qualquer tipo de continuidade.



5) Moriarty é uma distração constante

Tenha certeza, o Moriarty de Andrew Scott foi uma dádiva para a série, mas uma vez que ele estivesse morto, deveria continuar morto. Mas já que era tão popular, a narrativa o trazia de volta constantemente como um espectro, insinuando que Moriarty tinha planejado obscuras e impenetráveis tramas para manter Sherlock ocupado mesmo após sua morte.

Na verdade - provavelmente desde que o programa nunca soube se iria ter uma próxima temporada - todos esses acenos nunca foram recompensados. Nós descobrimos na quarta temporada que Moriarty havia usado a irmã de Sherlock para entregar algumas mensagens a Sherlock após sua morte, mas era...isso. Que decepção.

E então há o fato de que a ameaça do retorno de Moriarty foi o motivo para que Sherlock nunca precisasse pagar pelo assassinato de Magnussen. Agora que ficou estabelecido que Moriarty nunca esteve de volta, Sherlock não deveria enfrentar a punição?

É quase certo que isso não irá acontecer. Em vez disso, Moriarty irá afundar como a grande distração de Sherlock, e nem mesmo uma das boas, devido ao maior problema da série: não conseguir manter nenhuma coerência ou direção narrativa.

De qualquer forma, Moriarty funciona como uma metáfora adequada para os problemas que assombraram Sherlock desde sua primeira aparição na primeira temporada: Muito como o próprio Moriarty, a série provou ser cheia de muito ego e masculinidade exibicionista, mas não muito mais que isso.

14 comentários:

  1. Jesussss, que geração mimimi...querem fatos plausíveis, assistam documentários. A origem do personagem sempre foi o de aventuras espetacular e megalomaniacas. O personagem não é politicamente correto, nunca foi. Ele é egocêntrico, sociopata e muitas vezes amoral. Esse povo parece que nunca tinha ouvido falar dos personagens antes de 2010. Afff o mania de céu ou inferno, se eu gostar é a maior maravilha do mundo, se não é o pior lixo. Tá na hora desses críticos irem ler bula de medicamentos, esses sim são científicos

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    1. Concordo plenamente. Sherlock é para ser uma série de impacto,claro que ele vai se safar e tudo ,mas,pensem no que ele passou e no que ele passa. O cara é um gênio e se vocês não sabem,pessoas que pensam demais e são muito inteligentes não sentem necessidade de se interagir com outras pessoas. Ele se droga e quase morre por isso várias vezes,como acham que ele vai ser um personagem normal? Que ama todo mundo e sai abraçando as pessoas? Se ele não fosse sangue frio,nenhum Sherlock Holmes existiria. Me expliquem o apego dele pela Irene,John Watson,Mary...ele é mesmo muito duro com as pessoas para se drogar tanto e quase morrer para ter a atenção do melhor amigo.

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  2. na boa sr. crítico, diz aí algo que você tem escrito com 0,001% da genialidade do Sherlock que a gente conversa...

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  3. Finamente uma ótima crítica. Parabéns.

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  4. Infelizmente, o que foi dito sobre Moffat não foi mimimi e sim verdade. Digo isso porque assisto Doctor Who, e as personagens femininas criadas por ele são muito semelhantes às de Sherlock; isso, comparando o Sherlock com o próprio Doutor. Além disso, o roteiro foi ficando cada vez mais denso e confuso SIM, cheio de furos, coisas mal explicadas e finais decepcionantes.
    Não digo que passei a odiar a série. Ela ainda é a minha favorita, e tanto Moffat quanto Gatiss nos entregaram releituras sensacionais dos casos clássicos do detetive. Porém, esses são erros que precisam ser corrigidos.

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  5. Concordo com o fato de não haver um fim para várias das tramas dentro da série , mas puta que pariu! É muito mimimi... Anderson e Lestrade são personagens masculinos e não tem nenhum significado maior na série. Mary ganhou muito mais notoriedade que nos livros. Irene Adler faz jus aos livros no sentido de ter interesse sexual em Sherlock e por fim: A série é sobre o Sherlock! Ele é o centro da história juntamente com Watson que tem um papel de segundo plano exatamente como nos livros...

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  6. Talvez a questão seja tempo pra desenvolver o enredo. Achei a trama da 4 temporada muito boa, talvez complexas para 3 episódio. Mas que essa montanha russa emocional onde colocaram Sherlock e Watson foi bem interessante. nos livros John é viúvo, a Mary teve muito mais destaque na série, mas a série sempre foi sobre o desenvolvimento da amizade dos protagonistas. Microsoft não passa a mão na cabeça do irmão, ele apenas faz qualquer coisa para manter sua reputação até apagar provas contra o Sherlock mas sempre para se safar.
    Tomara venha a 5 temporada

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  7. Provavelmente escrito por uma Johnlocker revoltada que passou sete anos amando a série e agora mudou da água para o vinho.

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    1. Ah sim, os argumentos foram todos esses, não é mesmo? Amar a série não significa perder o senso crítico.

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  8. Alguns argumentos têm alguma pertinência. Sim, às vezes Sherlock merece um soco por não ter vergonha de abusar das pessoas, kkkkk.

    Mas, a verdade é: se o autor fosse analisar James Bond, Missão Impossível e 90% das séries de investigação criminal da tv, ele entraria em coma. rsrs.

    É uma série de tv, não um tratado sociológico, vamos combinar? E o que faz ela ser divertida é justamente ser absurda e exagerada.

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  9. Pois é, ficção tem esse nome justamente por não ter obrigação de ser verossímil. Sherlock é um personagem que assim como James Bond vejo como versão britânica dos super-herois. Se pegarmos a literatura da era Vitoriana, o sensacional e fantasioso faz parte de boa parte das tramas, vide Darían Gray e cía. A adaptação prometida pelos criadores sempre foi em relação ao espaço/tempo da história. Mostrar Sherlock nos tempos atuais, com uso de tecnologias mas nunca foi de tornar os personagens em algo que nunca foram. As tramas têm furos como todas as outras, roteiro perfeito para esse tipo de estória ainda não vi...

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  10. Também acho que as tramas poderiam ser mais "verossímeis" e ter uma lógica mais consistente. Não estou dizendo com isso que queria ver um CSI Sherlock, baseado em realidade. Nada disso. É óbvio que tudo é diversão, é exagerado e espetacular (a própria existência de um personagem como Sherlock já é isso tudo, não é mesmo??rsrs) Mas senti falta daquele frescor, tramas e mistérios que vimos na 1a e 2a temporada, que foram as melhores e mais perfeitas na minha opinião. Os 'loops infinitos' na trama, a história contada em forma de sonhos (quase-pesadelos) me deixou a impressão que estou vendo um outro tipo de filme (algo parecido com a Ilha do Medo) e não um Sherlock Holmes, que tem uma outra essência, na minha opinião. Claro que é muito legal ver o desenvolvimento psicológico dos personagens, entender seus tramas e fragilidades. Isso foi muito interessante, só acho que pecaram um pouco pelo excesso. Enfim, só queria ver mais um pouco do que foi visto na 1a e 2a temporada, do em s4e3 por exemplo.

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  11. Para mim o que aconteceu com o Sherlock e que não aconteceu não faz a menor diferencia em se tratando de ter sido bom ou ruim. Mas se vcs, críticos de plantão, fizerem melhor, sintan-se a vontade!

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