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Um caso para Johlock: Porque Sherlock deveria abraçar o seu ship dos sonhos


Este texto demonstra porque, apesar de Sherlock se manter fiel ao cânone - no sentido de manter Sherlock Holmes e o doutor John Watson como um assexual e um heterossexual que se amam como melhores amigos-irmãos, não seria ruim se Mark Gatiss e Steven Moffat inovassem e transformassem em realidade um relacionamento homossexual entre os personagens, já que haveria base para isso.

Está sendo postado aqui para uma reflexão sobre uma questão maior, que é a da representatividade (principalmente pontos 2 e 1) e apesar de termos mantido o título original, não é nossa intenção tratar ou defender um ship, e de maneira nenhuma reflete cobranças ou desejos da Sherlock Brasil para com os criadores de Sherlock.


Tradução: Júlia Silveira

Praticamente todos os personagens que estão no ar já foram combinados com outros, imaginados em relacionamentos sonhados por fãs ansiosos, tanto para gerar risadas quanto para satisfazer paixões pessoais. Todo fandom tem seus pares favoritos, mas se você é um seguidor da série Sherlock da BBC, o casal mais debatido é, de longe, John e Sherlock ou Johnlock. O desejo de ver esses dois juntos para além de uma simples amizade platônica repete-se muito em blogs e fan fictions, mas será algo que os fãs verão se desenvolver nas telas?
Há muitos fatores a serem levados em consideração aqui. Infelizmente, em 2017 ainda há uma certa controvérsia em mostrar um casal gay em uma relação cotidiana, que não está presente para fins de alívio cômico ou como apoio para enredos secundários. A rede e seus afiliados permitiriam isso? Quão conservadores são as suas políticas e as de seus anunciantes? Dada a esmagadora popularidade da série em escala internacional, eu apostaria que seus investimentos superariam facilmente quaisquer escrúpulos que possam existir. É incrível como o capitalismo consegue resolver todos os tipos de males.

Independentemente disso, Mark Gatiss e Steven Moffat querem que esta seja a dinâmica dos seus personagens? De acordo com eles, a resposta é não. Em uma entrevista à Valerie Parker em julho do ano passado, Gattis afirmou “nós dissemos explicitamente que isso não vai acontecer – não há nenhum jogo planejado – não importa o quanto nós mintamos sobre outras coisas, essa série não vai culminar em Martin e Benedict indo juntos em direção ao pôr do sol. Eles não farão isso. ”

Isso soa muito como um final. Talvez.

Já que esses dois fizeram o máximo de filosofia de Arquivo X, de que uma mentira é mais convenientemente escondida entre duas verdades, sempre há espaço para dúvida. (Realmente, qual é a probabilidade de um profissional experiente como Gattis de repente confundir os nomes de seus personagens pelos dos homens que os interpretam?). Em todo caso, acho que uma relação abertamente romântica entre John e Sherlock valeria muito a pena.

Considere os seguintes pontos e determine por si só se este jogo é apenas uma fantasia a ser esquecida ou se pode ser o destino final.

5. Os personagens já têm uma ligação forte

Ninguém discutiria a ideia de que os personagens originais de Sir Arthur Conan Doyle, Holmes e Watson, são melhores amigos; através de cada uma das muitas variações apresentadas essa é uma das poucas facetas que permanece consistente.

Eles são uma equipe. Individualmente, no entanto, falta alguma coisa em cada membro da equipe. Em um determinado momento, Sherlock confessa em “O Grande Jogo” que foi “informado de forma confiável” de que não tem coração, chegando ao ponto de declarar várias vezes que é um sociopata altamente funcional. John, por outro lado, é “atraído por situações e pessoas perigosas de forma anormal”; ele sente falta da guerra que o deixou para trás. Ambos têm um vazio que precisam preencher e que é exatamente o que o outro satisfaz.

Em Sherlock isso é repetidamente reforçado. John e Sherlock são claramente apresentados como duas metades de um todo, cada um precisando do outro para ser uma versão completa de si mesmo – John, o coração e a inspiração; Sherlock a excitação e o desafio intelectual. Quando Sherlock fica confuso com o fato de que uma mulher continuaria triste pela morte da filha depois de quatorze anos ou quando ele alegremente investiga um sequestro, John está lá para mediar suas reações. Então, quando Sherlock retorna em “O Caixão Vazio” ele corretamente insiste, falando com John “você sentiu falta disso... a emoção da perseguição, o sangue bombeando em suas veias, nós dois contra o resto do mundo”. Em “A noiva Abominável”, John ri para Moriarty, “sempre somos nós dois”. Deve ser. Inevitavelmente, todos os caminhos levam à Baker Street, de volta às suas raízes, juntos.

4. Há muitos precedentes de que Sherlock nunca se esquivou das sugestões de que ele e John são mais do que amigos

Desde o começo, John é confundido como se fosse um namorado de Sherlock e o homem que “sobreviverá a Deus tentando dar a última palavra” não faz nenhuma correção, nem mesmo quando uma repórter em “A Queda de Reichenbach” pede uma declaração questionando se a relação entre ele e Dr Whatson é estritamente platônica. Mais adiante, os dois gays proprietários do The Cross Keys Inn, em “Os Cães de Baskerville”, avaliam que John e Sherlock são um par; e a senhora Hudson, que mora apenas um andar abaixo deles e os conhece muito bem se refere a uma de suas discussões como “briga de casal” e fica chocada quando John está pronto para seguir em frente (para casar com uma mulher?) depois de dois anos após a suposta morte de Sherlock. Então, Irene Adler, que classifica as pessoas com a mesma habilidade que Sherlock, desperta o ciúme de John por conta das 57 mensagens não respondidas que ela enviou (sim, John continua acompanhando) e categoricamente contraria a insistência de John de que ele e Sherlock não são um casal: “sim, vocês são”. Finalmente, em “A Noiva Abominável”, quando John salva sua outra metade do precipício, Sherlock transborda elogios sobre a inteligência de John, o próprio Moriarty vira os olhos para cima e zomba: “oh, porque vocês dois não fogem logo, pelo amor de Deus?”.

Há também inúmeros exemplos de extrema devoção que nos são mostrados. Em “Seu último Juramento” Sherlock literalmente reinicia seu próprio coração porque John está em perigo e, então, comete assassinato para proteger John da extorsão de Magnussen.

Em “O Grande Jogo”, John se joga em Moriarty para permitir que Sherlock escape da bomba que ele veste e em “Um escândalo na Boemia” ele termina com sua namorada e com seus planos de feriado para ficar em casa e cuidar de Sherlock, uma escolha que faz facilmente após a exigência dela, “não me faça competir com Sherlock Holmes!”. (Ah, ele não ousaria; não há competição). Além disso, abundam imagens de olhares intensos e muito significativos entre esses dois, negociados como se fossem ações nos fóruns de internet e mídias sociais, todos gritando algo que está borbulhando abaixo da superfície. Assim, a transição para um casal oficial não seria muito forçada.

3. Se encaixa no modelo transformador da série

Gatiss e Moffat mostraram uma propensão a inovar com sua versão dos personagens de Doyle. Será que Doyle teria levantado a sobrancelha diante de uma irmã de John lésbica e divorciada que é levada a beber? Duvido que o autor original teria imaginado a senhora Hudson como uma ex-dançarina exótica que foi casada com um líder de cartel de drogas. E certamente ninguém antecipou que a amável Maty Morstan se revelaria uma ex-agente de inteligência e uma implacável assinada treinada.

Os criadores não tiveram medo de adicionar seu próprio tempero especial nesses personagens. Em uma entrevista de 2014 com Phil Ittner, Gattis e Moffat afirmaram “a maioria (da série) é, na verdade, completamente nova, então não há como a fonte secar... Estamos alargando um pouco o mundo e sendo um pouco mais heréticos do que provavelmente teríamos sido no começo. Mas isso é bom, essa é a nossa versão...”. Para ir de cabeça e ao ápice, esse conceito com o par principal permitiria fazer uma marca indestrutível no enorme cânone das iterações de Sherlock Holmes.

Afinal, personagens secundários são reveladores; nesse universo, John e Sherlock são os únicos que importam. A série foi proposta como a história do desenvolvimento de um gênio, daí o seu título bem específico, construindo Sherlock Holmes até o ponto em que ele pode dar e receber amor livremente, alcançando verdadeira intimidade. Pode ser o melhor desenvolvimento possível. Gattis e Moffat poderiam prover essa humanidade a ele e criar uma zona de conforto para a notória esfera melancólica da vida privada do único detetive consultor do mundo.

2. Representação adequada é importante!

Todos os segmentos da sociedade podem e deveriam ter direito a se reconhecerem explicitamente nas mídias que consomem, seja ficção ou não-ficção. No século XXI isso não deveria ser a luta que ainda é, mas qualquer um(a) na comunidade LGBT sabe como há resistência para mudar essa prática na máquina das instituições sociais. Comumente personagens gays são usados como alívio cômico e papéis secundários; não é permitido que eles sejam seres humanos reais e valiosos. São personagens estereotipados, figurantes que inevitavelmente são demitidos se a morte os chama.

Steven Moffat tem sido muito enfático sobre a questão de que mostrar personagens gays ou bissexuais na cultura de massa não deveria ser abordada com trivialidade, que é uma questão séria que deveria ser oferecida (particularmente aos jovens) de uma forma que denotasse verdadeira aceitação. Na sua entrevista à Parker, ele afirmou, “você não quer dizer às crianças que [ser gay] é algo que sobre o qual se deva fazer uma campanha. Você quer dizer que está tudo bem e que isso é absolutamente normal. Não há uma pergunta a ser respondida. Você quer passar batido nisso, de alguma forma. Você não quer... dizer, como algumas vezes outros tipos de literatura e filmes podem fazer, que nós o perdoamos por ser gay. Você está apenas dizendo que é gay e isso não importa. Não há problema”.

Essencialmente, a sexualidade de uma pessoa é apenas uma realidade mediana, marginalmente interessante, não definidora da personalidade, comum. Assim, não importa a sua orientação sexual, não é estranho; não é especial ou diferente, não é maravilhoso nem terrível. É apenas como qualquer característica mundana, como a cor dos olhos ou o tamanho dos pés. De fato, enquanto esse assunto pulsar e palpitar com sua novidade dissoluta, a verdadeira aceitação ainda não terá chegado. Ter Sherlock e John integrando suas sexualidades de forma contínua na lista de outros atributos que a audiência vem testemunhando, para compor o quadro completo de quem eles são, nos seria concedido uma imagem confortável e genuína de um casal dedicado que, por acaso, é gay, e do qual todos nós podemos finalmente nos beneficiar.
  1. Faria diferença
De acordo com a Rádio Times, a série é exibida em 224 países e territórios ao redor do mundo, sendo o programa mais assistido da BBC, superando até mesmo Dr. Who, que tem décadas de história. Ele tem gerado blogs, produtos e uma série de eventos de fãs de Sherlock, que são grandes assuntos para rivalizar com as mais populares comic cons, onde cada artefato, cada conjunto de detalhes, é valorizado e aplaudido.

Os protagonistas da série, Benedict Cumberbatch e Martin Freeman são estrelas internacionalmente amadas. Em grande parte graças a essa série, eles estão sendo constantemente demandados, encabeçando sólidos projetos de estúdios, como a série de filmes O Hobbit e Dr. Estranho, da Marvel. Cada um deles tem um segmento enorme de fãs, e com razão – são artesãos em ganhar prêmios, talentos extremamente versáteis que merecem todo o sucesso que adquiriram.

Este grau de influência e apelo gera muito o poder.

O que a série oferece, o mundo consome; o que ela aponta como suas diretrizes, as pessoas reparam e, além disso, seguem. O que, então, poderia ser alcançado em termos sociais se Sherlock sutilmente desmistificasse relacionamentos gays? Que resultados teríamos se um produto estelar e com indivíduos altamente populares envolvidos indicasse que um relacionamento homossexual é um pouco complicado, difícil, chato e maravilhoso como qualquer outro?

7 comentários:

  1. E o Sherlock diria que esse assunto é tão "BORING"... Existem muitos personagens gays interessantes, esses não são. Watson é o irmão que Sherlock não encontra no Mycroft, só isso. Pq sexualizar uma amizade/irmandade? Assim como o texto em que a Mary diz que John foi o melhor que aconteceu a ela, não é machista. A mulher era uma mercenária, ela matava pessoas e o que me parece uma falha de caráter muito mais séria do que se apaixonar por um homem integro e enxergar nisso algo bom.
    Sherlock não era atraído sexualmente pelo John, em vários momentos a série mostrou uma certa inclinação dele em relação a Molly, ele tem um caso com A MADRINHA de casamento, sem falar da paixão/tesão pela Irene. Sherlock não se liga emocionalmente a ninguém e o sexo pra ele cria ligações que o distrairia no seu foco. Ele se acha acima de qualquer crença humana, afinal a terra ser redonda é insignificante.
    Existem maneiras bem mais efetivas de se tratar qualquer tipo de discriminação no mundo real. Deixem a ficção ser apenas isso, afinal são personagens não gente real.

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  2. Só uma correção: o Martin Freeman ja tinha sido escalado para o Hobbit, antes de Sherlock. Ele já era um astro (ok, talvez bem mais conhecido na Inglaterra), antes de Sherlock.

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  3. Parece que chegamos a um ponto onde as pessoas acham há necessidade de representações das minorias em todo e qualquer tipo de lugar, hein? Se colocassem um romance entre Sherlock e Irene estariam traindo a obra original, descaracterizando e insultando o personagem e jogando todo seu nome na lama (além de ser bastante machista) mas se for um romance entre Sherlock e Watson teríamos a coisa mais linda, fofa e lógica do mundo, certo?

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  4. Se fosse para inovar, eu votaria na Molly. Sherlock e Molly!!! Mas não necessariamente como um casal apaixonado, mas talvez uma "pitada a mais" (cenas a mais), de um homem que cuida e zela por uma amiga que tanto admira.

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