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Após o final de Sherlock - Como não lidar com expectativas frustradas


Por Elizabeth Pereira*

Sherlock certamente foi um marco na mídia contemporânea, e na vida de milhões de pessoas. No meu caso, essa série mudou a minha vida de várias maneiras e serei sempre grata a Gatiss e Moffat. E tenho certeza de que os fãs sentem o mesmo, tanto os que acompanham desde o início da série em 2010 ou que começaram a ver bem depois.


Dito isso, precisamos comentar algo problemático que está acontecendo no fandom (basicamente os fãs mais fervorosos). Estando na internet, é impossível não estar cercada de piadas autodepreciativas com algum humor negro, mas tem uns comentários que nos deixam alarmados, como aqueles que brincam com a possibilidade de suicídio em massa. E como esse fandom tem muitas pessoas jovens que podem ser influenciadas facilmente (eu mesma sou uma delas), é preciso avisar do perigo que é falar sobre essas coisas sem pensar muito.


Muitos fãs se apoiavam na esperança, baseada no que acreditavam ser pistas deliberadamente espalhadas pelo roteiro, de que os dois personagens ficariam juntos, que faria de Sherlock uma série revolucionária para a representatividade LGBTQ. Eu era fã dessa ideia e acharia lindo demais se tivesse acontecido, mas não foi o que vimos no último episódio - algo que era, na verdade, esperado, como será comentado adiante. Muitas pessoas, porém, agora estão desiludidas, algumas falando até em suicídio (link). Essas reações trágicas são realmente culpa da série e seus criadores, como estão dizendo?
Uma das coisas mais importantes de se lembrar nesse momento é: os produtores não te devem nada. Moffat e Gatiss sempre disseram que “faziam a série para eles mesmos” (link), como uma verdadeira fanfic. Eles claramente tem o direito de escolherem o final que preferirem. Eu, pessoalmente, concordo com algumas acusações de queerbaiting na série - Irene insistindo seriamente que John e Sherlock são um casal, por exemplo. Mas uma coisa é mandar uma mensagem sobre isso, ou escrever um texto, fazer um vídeo para o youtube, falando como tal coisa não funcionou no episódio e por que, dando ideias para melhorar; outra é acusar os criadores e os produtores do programa de situações sérias, expondo-os como pessoas horríveis por algo que Gatiss e Moffat sempre disseram que não ia fazer (link).


Ninguém deveria ser obrigado a ler no twitter que é responsável pela depressão de pessoas que ele nem conhece. É claro que não são todos os fãs de johnlock que fazem isso, mas um número considerável se acha no direito de infernizar essas pessoas, o que é muito problemático. É totalmente válido reclamar, criticar, até xingar quando você está na posição de emitir uma opinião. Porém, quando você ativamente decide partir para agressão verbal e bullying, perdeu toda a razão de sua manifestação. O mesmo, claro, se aplica às pessoas que decidem mandar comentários debochados e de cunho ofensivo à outros johnlockers apenas para zoar. Responder tudo na mesma moeda não é a solução para nada.


E pensar que a vida vai acabar depois da series finale, que nada mais valerá a pena por johnlock não ser canon... eu entendo muito bem a decepção que vem quando uma história segue um rumo que você não esperava e não queria (assistir Game of Thrones depois de ler os livros é uma tristeza, por exemplo); que é difícil imaginar uma vida sem fazer altas teorias com o pessoal, acompanhando setlock, esperando o hiatus acabar - ainda mais pra quem tá nessa desde o comecinho. Esse seriado tem quase uma década, vai realmente ser o fim de uma era. Mas vocês também não podem esquecer que Sherlock não deve ser mais importante que a sua própria vida. Com certeza levaremos dessa época muita coisa boa: amigos, histórias no fandom, de fanfics, etc. Mas a vida continua.

O mais provável é que a série tenha acabado mesmo no domingo. Ainda teremos um tempinho discutindo as histórias, como acontecimentos x e y aconteceram, etc., mas o final está aí. Se, por acaso, talvez voltar, vai ser daqui a muito tempo; nós brincamos com o hiatus, que nós somos “the fandom that waited” e tal, mas a gente vai ficar 3, 4, 5 ou mais anos na espera de algo incerto? Acho mais importante seguir em frente do que ficar no rancor porque não acabou como você queria, por exemplo. Assistir outras séries, talvez tentar algo diferente, mas mantendo os amigos que fez ao longo do caminho dessa fantástica série. Não estou mandando ninguém abandonar a série ou o fandom, apenas para que se lembre que nossa vida não se limita a esse momento. 

*Elizabeth Pereira é integrante da Sherlock Brasil

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