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Após deixar Doctor Who, Steven Moffat mostra desgaste também com Sherlock: "Quero fazer coisas novas"


 Esta entrevista contém dois major spoilers da quarta temporada

Steven Moffat concedeu uma longa entrevista para o TV DRAMA falando sobre o seu trabalho, Doctor Who e Sherlock. Ao longo da conversa, fica claro como o roteirista, produtor e showrunner demonstra desgaste em ter se dedicado tantos anos às duas séries e sente falta de criar e se envolver em novos projetos. Nós destacamos os trechos mais interessantes, onde inclusive ele discorre sobre a morte de Mary Watson no primeiro episódio da quarta temporada.

Vale a pena também a leitura para todos os interessados em roteiro e em entender como funciona o trabalho em tempo integral de um showrunner.


Steven Moffat começou a escrever para Doctor Who em 2005. Cinco anos depois, foi promovido a roteirista-chefe e produtor executivo do hit britânico. Ao mesmo tempo, Moffat estava trabalhando com seu amigo Mark Gatiss na criação da versão contemporânea de Sherlock Holmes. Ao longo de apenas 13 episódios em quatro temporadas, Sherlock se tornou um fenômeno assistido no mundo inteiro e abocanhou um Peabody e múltiplos BAFTA e Emmys.

TV DRAMA: Como você e Mark Gatiss mapearam a quarta temporada de Sherlock?
 
MOFFAT:
Nós começamos a falar sobre ela por acidente, um dia. Estávamos gravando O Último Voto, o terceiro episódio da terceira temporada. Estava chovendo e nos abrigamos em um dos trailers da produção. Enquanto ficamos sentados lá, nós viemos com essa ideia da irmã, que já tínhamos considerado durante um tempo. E se houvesse uma irmã? E se ela fosse a mais inteligente dos três, mas também a que não tenha compasso moral nenhum? O que poderíamos fazer com ela? Nós sabíamos que Mary iria morrer porque Mary não permanece -- isso é um fato da história de Sherlock Holmes. Na maior parte do tempo das histórias, o Doutor Watson é um viúvo. Ele precisa ser. Nós tínhamos que colocá-lo nessa posição. Nós sabíamos que iríamos fazer isso. A gente sabia que teria que amarrar qualquer apocalipse que Moriarty tivesse planejado para Sherlock Holmes após sua morte. E isso nos levou à introdução da irmã. Foi uma coisa tão divertida de fazer. Todo mundo pensa que ele tem um outro irmão. Por quanto tempo nós podemos ludibriar [os espectadores] a presumir que já que eles são dois irmãos homens, poderiam ser três? É uma alternativa bem óbvia! Então nós fomos por aí. Tivemos o cuidado com os pronomes até o momento final quando não só é revelado que ele tinha uma irmã do mal, como você a assistiu durante duas semanas. Foi um plano corajoso. Não sabíamos se conseguiríamos encontrar alguém capaz de fazer isso de uma forma que funcionasse. Sian Brooke entrega uma performance fenomenal nos vários papeis que interpreta. É extraordinário.

TV DRAMA: Eu senti muito pela morte de Mary -- e isso me surpreendeu. Não tinha percebido o quanto gostava dela.

MOFFAT: Nós não queríamos apresentá-la e daí simplesmente dar um tiro nela. É horrível quando você faz isso. Nós queríamos introduzi-la e, contra a expectativa de todos, fazer ela ser parte do time com sucesso. Não fazer com que você se ressentisse dela, que pensasse que ela era uma interrupção ou a esposa reclamona -- na verdade, fazer você achar que ela é bem bacana, que gosta dela, que é quase melhor os três juntos. E aí, depois de a colocarmos lá, tivemos que tirá-la. Ainda que esse não seja um elemento que esteja nas histórias originais, essa é a nossa versão: é o legado dela que eles vivem, é ela dizendo "isso é o que vocês precisam ser, vocês precisam ir lá e conscientemente ser Sherlock Holmes e Doutor Watson. Sherlock Holmes agora vai usar aquele chapéu besta porque Mary gostava. Parece o certo.

Você sempre tem noção de que as pessoas ficam preocupadas, e eu posso ver perfeitamente por que, a respeito daquele termo que chamam fridging, 'colocar na geladeira', quando uma personagem feminina não tem outra função a não ser motivar os personagens masculinos. Mas Mary serviu em muitas, muitas outras funções que não essa na nossa série. Ela mudou e iluminou o caminho da série. Então achei que estávamos a salvo disso. Ainda que nós nunca iremos estar a safo dessa acusação já que eles chamam de fridging até o que não se aplica naquelas regras! Não pode haver uma regra que diga que não se pode matar personagens femininas. Não dá, é loucura. Mas você deve ter uma regra que diz que a morte de uma personagem feminina não pode ser apenas uma ferramenta. Ela precisa ser um evento que se justifica por si mesma. Deve ser algo importante e pessoal.


TV DRAMA:  Você é considerado um dos poucos showrunners de estilo americanizado no Reino Unido. Que tipo de habilidade você precisou desenvolver para ir de roteirista de Doctor Who ao gerenciamento de toda a série?
MOFFAT: Bem, eu sou o diretor criativo do programa. Sou responsável pelo universo ficcional e tudo o que o afeta. Brian Minchin, meu coprodutor executivo em Doctor Who, é responsável por gerenciar o programa e lidar com a fera. Eu seria péssimo nisso e não faço. É claro, eu defini bem claramente quais seriam nossos papeis. Às vezes eu me envolvo em outras partes do gerenciamento do programa e às vezes o Brian se envolve no lado criativo. O indispensável mesmo, quando você é showrunner é que você deve liderar 12, 13 episódios de Doctor Who, 3 episódios de Sherlock, e você deve estar no comando dos aspectos criativos de tudo isso. Eu vou fazer, e esse é o jeito certo e aquele é o jeito errado. "Visão" é uma palavra que soa muito pomposa. Sendo honesto, acho que o que nós chamamos hoje de "showrunner" é um trabalho que eu venho fazendo desde que comecei a trabalhar na televisão e era apenas um roteirista. Se trata apenas de ser um roteirista muito intrusivo, altamente envolvido, Quando comecei não havia esse termo. Mas eu estava em todos os encontros sobre dublagem, edição. Tudo que afetava as facetas criativas do programa, eu estava lá. É uma palavra chique para a palavra roteirista chefe e produtor executivo e cara que precisa reescrever glorificado.
TV DRAMA: Você precisa estar em algum lugar específico para escrever? Há algo que você precisa fazer para colocar sua cabeça no clima certo?

MOFFAT: Contemplar meu deadline! Tem lugares onde gosto de escrever. Tenho o meu escritório na casa de Londres. Nós temos uma casa em Cardiff, onde eles fazem Doctor Who e Sherlock, eu tenho um escritório lá também. Esses são meus lugares favoritos para escrever. E devido à minha agenda intensa nos últimos anos, eu preciso ficar escrevendo nas férias. Consigomescrever em certos quartos de hotel. Se estou em um lugar e sinto que não é adequado para escrer, então não consigo. É impossível para mim escrever com alguém do lado. (...)Todo manhã eu recomeço o roteiro desde o começo. Eu começo na primeira página e leio tudo e reescrevo enquanto leio, assim eunão me esqueço do tom da direção pra onde estamos indo. Eu sempre tenho um plano na cameça, às vezes meio Bizantino e complexo, às vezes imbecil e complicado, mas eu nunca os escrevo. Não posso escrever, tem que ficar na minha cabeça. Se eu escrever, aí se tornauma regra, o que significa que eu não poderia mudar. Imagina ter um plano que você está considerando há uns 6 meses e começa o trabalho de escrevê-lo e ele não funciona. Não dá pra dizer "vou continuar escrevendo de qualquer forma, mesmo que não funcione". Você tem que jogar no lixo. É assim, não importa quanto tempo você passou elaborando esse plano e quantas pessoas aprovaram ou quantas pessoas disseram que a ideia era ótima. A série precisa funcionar.

E televisão, em particular, precisa funcionar no momento. Cada cena precisa se justificar, não por ser parte de um todo, mas por ser interessante e empolgante por si mesma e se for a única parte do programa que você viu, você achou bom. O principal é você trabalhar duro.


TV DRAMA: Por que você quis deixar Doctor Who esse ano?

MOFFAT: Acho que a pergunta mais adequada é por que eu fiquei tanto tempo! É o maior tempo que já fiquei fazendo qualquer coisa. Nos primeiros anos eu era um dos roteiristas enquanto me envolvia em outros programas, e aí [Doctor Who] dominou e se tornou um trabalho em tempo integral, somado a Sherlock no topo disso. Eu fico perplexo por todo o tempo que passei fazendo isso! Eu meio que sinto falta do meu próprio trabalho de fazer séries de TV e fazer coisas novas, que é o verdadeiro trabalho de um roteirista. Eu tenho feito a curadoria e cuidado e me preocupado com Doctor Who e Sherlock por muitos anos -- essas duas enormes franquias que regurgitam novíssimos problemas todos os dias - além de escrevê-los. Você jamais é tão autor quando você escreve algo novo, quando tenta algo diferente. Eu sinto falta de tudo isso. Eu sinto falta de ser de fato um roteirista. Eu quero sair e encontrar coisas novas para fracassar nelas! [Risos]
Como eu sempre coloco, o Doutor é a estrela e a companion é a protagonista. São duas funções diferentes. Assim como nas histórias de Sherlock Holmes, Dr. Watson é o personagem principal e Sherlock Holmes é o astro.
- Steven Moffat
TV DRAMA:  Você já tem ideias sobre o que quer fazer agora?

MOFFAT: Tem uma com a qual estou bem empolgado. Não posso falar sobre ainda. E estou em uma posição boa de conseguir as coisas se eu quiser. Tem algumas coisas que tenho vontade de fazer. Eu provavelmente vou querer fazer algumas coisas diferentes porque sinto como se, mais por acidente que planejamento, me envolvi na curadoria de duas coisas imensas, duas coisas enormes do showbiz que todo mundo no mundo quer ter a opinião a mais interessante para dar a respeito. [Risos]

Eu queria fazer algo completamente diferente delas. Foi muito revigorante na primeira vez que escrevi Doctor Who porque eu estava há anos escrevendo comédia. Na primeira vez que escrevi Doctor Who senti um glorioso choque da novidade, que eu gostei e que acabou me estimulando como escritor. Eu meio que gostaria de ter aquele sentimento de novo.

Fonte: TV DRAMA

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